Minha foto
Empreendedora. Organizadora de Ideias. Escritora. Ex-executiva de multinacionais, por onde navegou 15 anos. Há quatro, cultiva o Viver Mais Simples.

16.4.14

O limite da fé

Nem todos os dias acordo com a mesma coragem.
Esta semana por exemplo, recebi um calhamaço de contas inesperadas.
Fraquejei.
Uma saudade de salário fixo passou voando na janela.
Respirei fundo e repeti para mim: meu trabalho é único e especial.  Eu o forjei amorosamente por anos, paguei preços altos. Ele vai crescer e frutificar. É questão de tempo e empenho.
Sou  bastante amiga do tempo e do empenho.
Olho na janela e a saudade já faz curva na esquina. Não é hora de desistir.

Entrego e confio.
Não é fácil.  Mas é preciso.

O preço de voltar atrás é muito, muito alto. Ainda há alternativas a explorar, caminhos a percorrer.
Além de um joelho ruim e ideias demais esperando por sair do papel, a minha vida está muito boa.
Lily Moon

Sim, é preciso cuidar das despesas. Já estou fazendo.
É preciso abrir novas frentes, cultivar projetos. Também, tudo em curso.
Organizo-me, priorizo, descanso, respiro. Amo o que eu faço e o faço com muito amor.
No mais, é com o sócio de cima.
O mais precioso eu tenho. Um companheiro na vida e no amor. Uma família feliz, com direito a crianças cantando na chuva.
Tenho os melhores amigos do mundo, com quem partilho as pedras mais difíceis.
Tenho um trabalho maravilhoso, onde vejo pessoas se transformarem no que nasceram para ser.
Presencio milagres de todos os tipos e tamanhos, diariamente.

Tenho contas também.
Mas tenho o dinheiro suficiente para pagá-las.
Olhando para dentro, ainda um pouco inquieta, vejo o horizonte que tracei para mim.
É amplo, luminoso e vale muito a pena.  Cada centímetro da estrada.
Resgato fragmentos de coragem, guardo-os quentinhos no fundo do peito e prossigo.

Sonho, um pouco apertada, com dias de mais frouxidão.
Mas não cheguei nem perto do  limite da minha fé.
Avante.

13.4.14

Nossa história nos liberta

Reconheço que tenho e tive uma vida boa.
Nunca me faltou nada, ao contrário:  muito me sobrou.
Mas já são quatro anos de viver mais simples, a reserva dos tempos de executiva começa a rarear.
No atual andar da carruagem, durará mais um ano no máximo.
É portanto tempo de refletir sobre o estilo de vida que levo e as escolhas que faço com meu dinheiro.
Percebi que apesar da tão propalada simplificação, ainda carrego padrões nada frugais.
Mimos como comer fora, viajar, comprar presentes sem pestanejar. Viver num bairro nobre de minha cidade. Gastar sem pesquisar preços.
Confortos e descuidos além do básico.

Já fiz mil planos para reduzir custos e mudar hábitos. Frequentei cursos, li livros. Mas ainda gasto muito mais do que ganho (apesar do tanto caminhado)

Sim, o novo trabalho prospera e tenho certeza de que será mais do que suficiente. Mas ainda não o é, longe disso. Além do mais, há todo um investimento em aprender as ferramentas novas que agora me são necessárias.

Meu mais recente esforço para transformar minha relação com o dinheiro tem sido entender a história da prosperidade em minha família.
Entender os legados, as histórias, as crenças entranhadas na minha genética e conversas ao pé da mesa.
Tenho me aprofundado em minha história ancestral por vários caminhos.

Esta história é linda, repleta de obstáculos e reviravoltas, comovente e de superação.
Percebo-me responsável por honrar o legado de meus antepassados e ao mesmo tempo construir o meu próprio.

Investigadora de minha própria biografia, tenho realizado imensas descobertas.
Saber nossa história é  uma libertação.

Como nossos avós e pais viviam?
Quais foram (são) seus medos, suas tristezas?
O que omitiram de nós para não macular a pureza de nossa infância?
De onde vêm o credo familiar, os ditados, as maldições e bendições?

A cada capítulo revisitado, mais luz sobre mim mesma.
Sou uma das filhas mais prósperas de gerações e gerações. Mas escolhi recomeçar, é preciso e urgente.
Para isso, preciso me descascar de inutilidades.
Debaixo de tantos adereços, redescubro o valor da dignidade, do amor pelos filhos, da resiliência, da inventividade.
Ao antever o gradual desaparecimento de meu "colchão de segurança", permito-me ver a vida como ela é.

É preciso ganhar mais do que se gasta.
O mais importante é o essencial.
Podemos viver com muito menos.
E praticar tudo isso está longe de ser um exercício para preguiçosos.

Saber minha história me dá coragem, responsabilidade e bastante culpa também.
Mas culpa, diferente da vergonha, é algo sobre o que temos muita ingerência.

Repisando a trilha de meus avós e pais, descubro meu início profissional. Relembro o prazer do primeiro salário, da primeira viagem. Da rotina dos primeiros apartamentos em que morei.  Sem luxos, mas com muita alegria e satisfação.

Desvestindo-me dos excessos, redescubro esta pessoa que havia esquecido.
Antevejo mudanças e me seguro firme no leme.  Das estrelas, meus ancestrais me observam, amorosos e confiantes.



9.4.14

Pedestre no Rio de Janeiro: um desabafo

Sou uma carioca privilegiada, dizem,  destas que mora na  Zona Sul.
Trabalho ao lado de um dos edifícios mais lindos da cidade: o Teatro Municipal.
Isto tudo depois de ter vivido por sete anos em São Paulo, considerada um dos piores lugares do mundo em termos de trânsito, poluição e stress (deixando bem claro que eu amo São Paulo, acho uma bobagem esta rixa).

A vida perfeita? Infelizmente não.
Imagem: Kika Castro

Há quatro anos optei por ser pedestre. Este ano comprei um carro, mas ele fica guardadinho na garagem, para usos bem específicos.
Todos os dias eu enfrento as calçadas do Rio de Janeiro.  Enfrentar é bem o termo, isto aqui é uma selva.
Esgoto vazando continuamente, mesmo nas ruas "nobres". Esta semana eram poças na rua São Salvador, um dos locais mais concorridos da "night" carioca.
As icônicas pedras portuguesas são uma tortura: desniveladas, soltas no chão. Junto com as calçadas antigas e irregulares, um atentado à acessibilidade.
Aliás, neste quesito, o Rio é uma cidade bastante hostil.  Além de poucas rampas para cadeirantes e carrinhos de bebê, temos muitos "cidadãos" que estacionam bloqueando as passagens para pedestre.
Os ciclistas, símbolo do mundo sustentável, não ficam atrás. Trafegam sobre a calçada, muitas vezes em alta velocidade e/ou na contramão.
Mais de uma vez tive que resgatar um filho desavisado de um atropelamento iminente.
Experimente criticar um comportamento  incivilizado num carioca. Receberá de volta impropérios, às vezes de tão baixo calão que até mesmo uma quarentona moderninha como eu se ruboriza.
Heranças da Corte, alguns dirão. Eu digo que esta malcriação nos custa muitos textos como este aqui, questionando o título "Cidade Maravilhosa". E estes textos viram reputação. Até quando os turistas vão pagar o preço de nossa falta de educação para usufruir das belezas naturais e do lendário estilo de vida?
Tudo isso não era exclusividade da atual gestão municipal, vamos ser justos. Mas as mudanças generalizadas, numa simultaneidade caótica que desorienta motoristas e pedestres, sim.
Atravessar uma rua no Centro do Rio é atividade para corajosos, acho que será considerada modalidade no Iron Man, em breve.
Os guardas de trânsito estão obviamente instruídos a fazer o tráfego de carros fluir. A qualquer custo.
Com seus apitos infernais, ignoram o ritmo dos sinais de trânsito. Eu que pensava que havia engenharia e planejamento na cadência das luzinhas verdes e vermelhas.
Se havia, há muito foi para as cucuias.
E com a imprecisão natural dos seres humanos, estes agentes da "ordem" acabam permitindo ônibus e carros estacionados sobre a faixa de pedestres, dificultando o já insalubre ato de ser pedestre neste município.
Quem lê este blog sabe que não gosto de reclamar. Prefiro agir.
Mas após tantas violências sofridas ao tentar intervir ao vivo e a cores neste cenário de pouca solidariedade e nenhuma consciência do coletivo, decidi abrir o verbo.
Tento fazer minha parte. Quando estou de carro, evito fechar cruzamentos, mesmo submetida ao buzinaço dos colegas de volante.
Costumo respeitar sinal vermelho até mesmo à noite, pois não sei se é verdade que depois das 22h estão liberados (alguém me esclareça por favor). É ousado, confesso, pois o risco é grande. Mas não vou nem começar a falar do aumento da criminalidade neste texto.
Não sou profeta do fim do mundo em algum lugar entre a Copa e as Olimpíadas. Espero mesmo que tudo melhore um dia, com o fim das obras, a melhor educação do povo, a manutenção das ruas.
Mas enquanto isso não acontece, faço um apelo a você, indivíduo que pode interferir nesta realidade:
- Não buzine
- Não feche cruzamentos
- Não estacione em locais de passagem de pedestres
- Se for andar de bicicleta na calçada, com medo de ser atropelado, vá devagar e no sentido da rua.
- Não jogue lixo no chão (que entope ralos, que afetam as redes de esgoto e água, que se vingam voltando para cima).

Ah, se você for pedestre, também há regras. Não cruzar fora da faixa, não deixar seu cachorro deixar sujeira, não cuspir ou escarrar no chão, usar a lixeira... 

E para todo mundo: veja bem a trajetória e plataforma de seus candidatos na próxima eleição. Depois de eleito. Cobre.

Não sou ingênua. Sei que em outras cidades é também desafio ser pedestre. Mas tendo viajado e vivido em outros lugares, sinto que o Rio é um dos piores exemplos e isto me entristece, já que escolhi (por ora) criar meus filhos aqui, perto da família.
É isso. Vou voltar aqui para meu trabalho, um pouco mais esperançosa, mesmo ouvindo ao fundo o som de apitos na rua Evaristo da Veiga.
E você? Tem mais dicas de como melhorar o convívio entre pedestres, ciclistas e motoristas?