Minha foto
Organizadora de Ideias e Escritora. Cocriadora dos Projetos Odisseia e Argo, depois de 15 anos como executiva de multinacionais. Desde 2009, cultiva o Viver Mais Simples.

5.5.16

Duas vozes

Percebo duas vozes bem altas dentro de mim.
Uma voz tem mais medo. Do dinheiro acabar, da crise não passar, de eu estar perdendo tempo com iniciativas, desperdiçando minha energia com excessos.

Outra voz tem mais coragem. Quer prosseguir, mandar a crise para aquele lugar, avançar com crise e tudo.

Uma voz faz contas, diz não.
Outra voz arrisca, diz sim.

Pus as duas para conversar.
Christian Schloe

A voz do medo me ensina a não abraçar o mundo, não me jogar sem nem um casaquinho para os dias de frio.
A voz da coragem me ensina esperança, persistência, uma boa teimosia.

A voz da cautela, me faz ajustar o tamanho das asas, das velas, dos sonhos.
A voz da ousadia, me faz acreditar num caminho pessoal, sem certas amarras.

Há dias em que estou um pouco atordoada. As vozes gritam.
Mas agora, elas conversam.
Ponderam possibilidades. Traçam planos. Desejam.

Hoje seguro uma tímida esperança nas mãos e a aconchego no peito.
Um passo de cada vez, vamos adiante.

3.5.16

O melhor conselho



"Here’s the deal. The human soul doesn’t want to be advised or fixed or saved. It simply wants to be witnessed — to be seen, heard and companioned exactly as it is. "

"Este é a questão. A alma humana não deseja ser aconselhada ou consertada ou salva. Ela simplesmente deseja ser testemunhada - ser vista, ser escutada ou acompanhada exatamente assim como é".

Parker J. Palmer


Boa parte de minha vida, fui remunerada por meus conselhos. Ainda hoje, apesar do coaching ter transformado isso.
Nos meus melhores dias, tenho boas opiniões e experiências. Nos meus piores, sou dona da verdade e uma impiedosa chata.
Hoje tenho mais consciência de como minhas opiniões não solicitadas podem magoar. Mas ainda não sei bem como melhorar.  Por isso me interessei por um texto que dizia para evitarmos o conselho, quando ele não for solicitado.
Gaëlle Boissonnard

Sabe aquele momento de desabafo, quando se está sofrendo muito? Pois é, nada de conselho ou frase de "consolo".
Pode ser a perda de alguém querido. Uma saudade apertada. O fim de um relacionamento. Uma crise no casamento. Um momento difícil no trabalho.
Todos aqueles momentos em que nos sentimos menores, desprovidos, machucados.
Nestes momentos, o conselho pode ferir mais do que curar.
Não adianta sequer tentar dar "apoio" ("você é incrível",  "você vai sair desta", "você pode mais que isso").
Não, melhor que o conselho, é a presença.
Um colinho, às vezes, vai bem. Um ouvido empático. Boas perguntas: "como você está se sentindo". "Do que você precisa agora?". Ou o silêncio. Sou cada vez mais fã do silêncio (não que eu saiba praticá-lo...).

Olhando para trás, vejo como falhei miseravelmente com algumas das pessoas que eu mais amo. Vou tentar melhorar. Guardar meus conselhos para quando forem pedidos.
Por agora, é buscar responder com empatia incondicional, com amor, com presença tranquila.
Quem sabe, receberei o mesmo?


27.4.16

Metamorfónelope

A espada virou agulha.
Assim tem sido.

Uma lentidão de quem quer mais ver menino crescer do que desbravar oceano.
Uma saudade de casa, toda hora, uma vontade de dar colo e fazer janta.
O Ulisses está bem vivo, mas parece que dorme. E a Atenas, a Diana. a Mulher Maravilha.
São tempos de fazer sem pressa, ah, tentação mesmo de quase não fazer nada.
Tempos de menos, seguir o que o coração manda.
Paciência germinando, tristezas eventuais.
Crescem em mim Coras Coralinas e Manoeis de Barros.
O vaivém da linha colorida amarrando a vela do barco. O alinhavar das palavras costurando planos, possibilidades, vontades. Um de cada vez. De-va-gar.
A delícia de esperar, agora de ventre vazio de criança, mas prenho de sonhos.
Sei que é preciso sair da cadeira de balanço e ir roçar um pouco. Já vou.
Mas agora, só agora, remexo o mingau no forno, tiro a poeira da aldeia ancestral de onde nasci, mulher.