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Organizadora de Ideias. Empreendedora. Escritora. Ex-executiva de multinacionais, por onde navegou 15 anos. Há cinco, cultiva o Viver Mais Simples.

27.2.15

Vida farpada

Viver é muito perigoso, meu pai citava Guimarães Rosa.
De fato, é.
Caminhamos, muita vezes no automático, contando com uma cadência, uma certa previsibilidade.
Nada. A vida é tudo, menos monotonia.
Quando menos esperado,ela vira cerca farpada no meio da estrada. Caímos do cavalo.
É preciso saber levantar, montar de novo e partir.
Algumas vezes, é melhor ir a pé mesmo.
Mesmo assim, estamos andando distraídos, pronto.  Topada na pedra, dedo roxo.
Outra forma de farpa.
O tombo não foi tão grande, estávamos perto do chão.
Mas a dor, ai que dor.
Não temos escolha, no entanto.
Fazer o quê? Esconder-se, deitado sob a colcha, viver de pijamas?
Mesmo na cama, a vida pode nos dar sustos.  E, creia, é para nosso bem.
Nas farpas da vida estão lições preciosas.
Nossas desatenções e inércia tantas vezes matam mais que os tombos.
Matam o amor, a amizade, a autoestima.
A vida, assim farpada, nos ensina a caminhar de olhos abertos.
Conscientes das pedras e aramados, cuidando para não nos enredar (nem aos outros).
Lidar com este farpAmor é um tesouro na vida.
Saber tatear a rosa, apesar do espinho.
E sobretudo, não abrir mão da rosa, mesmo com medo de se ferir.
Fevereiro, tempo de fogo nos ventos e vida em brasa.
Sigo atenta e grata a estas farpas que me mantém mais viva.

24.2.15

Amor bem plantado

24 de fevereiro. Meus avós Celso e Gisela fariam 105 e 89 anos.
Eles são para mim um exemplo de amor de verdade.


De verdade, pois não foi casamento de faz-de-conta: houve doença. preocupação com dinheiro, dificuldades várias.
A casa antiga ainda existe, mas eles já moram no andar de cima há algum tempo.
Pisando no chão de tábua corrida, lembro do ranger dos pés de minha avó, preparando o café da manhã.
Recordo do tempo que meu avô já era um velhinho de cadeira de rodas e bem surdo, zelado por ela.
Amor que durou 48 anos e só se interrompeu quando ele virou estrela.
Lembro-me do meu avô declarando "Eu amo esta mulher!" e ele já tinha mais de oitenta anos.
Minha avó, ruborizada, tentou desconversar:
"Você então deseje a sua neta um noivo que a ame tanto quanto você me ama".
Ele, rápido e sorridente respondeu:
"Impossível. Não existe amor como o meu por você".

Não existe mesmo, pois não há no mundo dois amores iguais.
Mas o desafio da vida a dois pode bem ser o mesmo:
Escalar as pedras, curar as feridas, conversar sobre o que incomoda. Calar sobre o que não faz diferença dizer.
Preservar o namoro e também a amizade. Dar espaço para o outro crescer.
Respeitar a diferença, perdoar as fraquezas. E sobretudo, ser grato.
Gratidão de ter alguém ao lado para saber de nossas sombras e ainda assim escolher ficar junto.

Algumas pessoas me dizem "amar deve ser algo natural". Eu, neta de fazendeiro, discordo.
Amar é algo cultivado.
Escolher bem a semente, depois regar. Depois podar.  E se a planta ficar seca ou doente, cuidar muito para a fase ruim passar.

Este ano, meu jardim de vida em comum faz vinte anos. Houve geada e seca, mas sobreviveu.
Olhando para o céu, sinto meus avós sorrirem.
Eles também sabem: não existe amor igual ao meu por Lucrécio.  E volta e meia mandam uma chuvinha, para ajudar na estiagem.

20.2.15

Cabides Vazios

2015 começou lentamente aqui  nestas praias. A vida corria com força lá fora.
Um dos grandes movimentos foi uma reforma geral na minha casa.
Há anos eu me queixava de cacos e tralhas infiltradas em todos os cômodos. Era uma maçaneta capenga ali, o box meio mofado.
Por onde eu andava, havia um ar parado, de coisas quebradas ou sem uso.
Parece bobagem, mas estes cacarecos vão drenando nossa energia e bom humor.

Decidimos dar um basta.  Ainda no final do ano passado, começamos uma obra.  Nada de quebra-quebra, mas uma arrumada geral.
Contratamos um arquiteto amigo e excelente profissional. Programamos férias de três semanas, para aquele gás no sinteco e pintura.

E partimos.

Voltamos para a casa-caos, tudo fora do lugar. E aí foi arrumar gavetas e armários, tudo encontrando seu novo espaço.

Também - por que não?- foi tempo de se livrar de excessos. Doamos roupas, objetos, móveis.
Tudo que era quebrado ou sem uso, teve um destino.
Passado o vendaval da arrumação, ficaram os cabides.


Inúmeros cabides vazios, de muitas cores e tamanhos.
Antes de também incluí-los no rol das doações, refleti sobre como nossos dentros são cheios destes cabides.

Uma amizade que já acabou, mas insistimos em arrastar.
Um amor morto, que não enterramos.
Crenças inúteis que deixamos no armário do pensamento.
Ressentimentos, tristezas, vinganças, implicâncias.

A casa já está praticamente pronta, faltam detalhes.
É tempo de olhar para dentro e de lá desenterrar esqueletos e outras quinquilharias.
Com delicadeza e disciplina, separo os cabides vazios.
Ë um novo ano. Tempo de renovar.