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Empreendedora. Organizadora de Ideias. Escritora. Ex-executiva de multinacionais, por onde navegou 15 anos. Há quatro, cultiva o Viver Mais Simples.

23.4.14

Dançar com a dor

Meu nome significa alegria. Uma doce maldição.
Falo assim, em paz.
Sempre fui e trouxe alegria para o mundo. Hoje desconfio que tanta competência atraiu pedras cada vez maiores.
O desafio é sempre à altura da perícia do guerreiro.
Além de meus próprios apertos, foi me concedido o dom de sentir a dor dos outros.
Onde passo, percebo.
Não há tristeza que me escape.
No ponto de ônibus, no encontro com o outro. No escritório. Na rua. Na vida.
Trabalho pela travessia.
Este é meu caminho.
Iluminar o sombrio.
Um pouco fora, um pouco dentro de mim (às vezes, me perco entre fronteiras).
Sou uma ajudante.

Cegos, surdos, mudos, claudicantes: todos me interessam.
Todos me ensinam.
Olho para eu mesma, os soluços e tropeços de humana. Agradeço a pele fina.
Só assim, em carne viva, posso maravilhar-me tanto.
Em meio a cordilheiras de dificuldades alheias, descubro borboletas.
Meu ofício é sacro.  Ajudar plantios. Semear sonhos. Cultivar horizontes.
Quando tudo é estranheza, velar as mudinhas me faz feliz.
Hoje falava de escuros e tempestades com uma grande amiga.
Ao final, ríamos das intempéries.  É tão difícil, sabemos.  Mas é estrada que ensina.
Xingamos uma meia dúzia de palavrões, rimos da molecagem.
Que abraçar nosso destino não é ver tudo cor de rosa.
Abraçar nosso destino é amar o preto, o branco e o cinza.

20.4.14

Passagem que liberta

É semana de Páscoa.
Tão fácil esquecer o real sentido por trás do feriado.
Os judeus celebram o Pessach. A travessia do Mar Vermelho com Moisés. Ponte entre uma vida de escravidão e uma nova vida.
Na tradição cristã, a Páscoa também é passagem.  A ressurreição de Jesus, após seu martírio e morte.

Não importa sua religião.
Todos nós podemos experimentar gratidão por este tempo. O tempo de celebrar as transformações que podemos viver. As transmutações do que é escravidão e sofrimento em algo maior. Uma nova vida. Uma nova possibilidade.

Nosso dia é repleto de pequenas mortes e escravidões. Nos agarramos a histórias passadas, a medos, fantasias, angústias. Somos escravos de nossas ferrugens e teias de aranha.

Dirk de Bruycker, Sea Star


Nesta época do ano, temos uma nova chance. Uma oportunidade de relembrar todas as passagens que fizemos.  Todos os desafios que enfrentamos.  Todas as vitórias, pequenas ou gigantes.

Todo o amor que cultivamos. As amizades, o reaproximar-se de quem estava longe.
Toda a colheita: os frutos de nosso trabalho, nossos filhos e netos. Nosso legado.
Toda a possibilidade: estamos vivos e enquanto o estivermos, a bola está rolando no campo, esperando por nosso gol.

É tempo de rever nossas amarras e espinhos, para deixá-los para trás.
O caminho adiante é de liberdade e amor.
Desejo a todos paz no coração e força nas pernas, para avançar rumo ao seu melhor destino.

Feliz Páscoa.




16.4.14

O limite da fé

Nem todos os dias acordo com a mesma coragem.
Esta semana por exemplo, recebi um calhamaço de contas inesperadas.
Fraquejei.
Uma saudade de salário fixo passou voando na janela.
Respirei fundo e repeti para mim: meu trabalho é único e especial.  Eu o forjei amorosamente por anos, paguei preços altos. Ele vai crescer e frutificar. É questão de tempo e empenho.
Sou  bastante amiga do tempo e do empenho.
Olho na janela e a saudade já faz curva na esquina. Não é hora de desistir.

Entrego e confio.
Não é fácil.  Mas é preciso.

O preço de voltar atrás é muito, muito alto. Ainda há alternativas a explorar, caminhos a percorrer.
Além de um joelho ruim e ideias demais esperando por sair do papel, a minha vida está muito boa.
Lily Moon

Sim, é preciso cuidar das despesas. Já estou fazendo.
É preciso abrir novas frentes, cultivar projetos. Também, tudo em curso.
Organizo-me, priorizo, descanso, respiro. Amo o que eu faço e o faço com muito amor.
No mais, é com o sócio de cima.
O mais precioso eu tenho. Um companheiro na vida e no amor. Uma família feliz, com direito a crianças cantando na chuva.
Tenho os melhores amigos do mundo, com quem partilho as pedras mais difíceis.
Tenho um trabalho maravilhoso, onde vejo pessoas se transformarem no que nasceram para ser.
Presencio milagres de todos os tipos e tamanhos, diariamente.

Tenho contas também.
Mas tenho o dinheiro suficiente para pagá-las.
Olhando para dentro, ainda um pouco inquieta, vejo o horizonte que tracei para mim.
É amplo, luminoso e vale muito a pena.  Cada centímetro da estrada.
Resgato fragmentos de coragem, guardo-os quentinhos no fundo do peito e prossigo.

Sonho, um pouco apertada, com dias de mais frouxidão.
Mas não cheguei nem perto do  limite da minha fé.
Avante.