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Organizadora de Ideias e Escritora. Cocriadora dos Projetos Odisseia e Argo, depois de 15 anos como executiva de multinacionais. Desde 2009, cultiva o Viver Mais Simples.

3.5.16

O melhor conselho



"Here’s the deal. The human soul doesn’t want to be advised or fixed or saved. It simply wants to be witnessed — to be seen, heard and companioned exactly as it is. "

"Este é a questão. A alma humana não deseja ser aconselhada ou consertada ou salva. Ela simplesmente deseja ser testemunhada - ser vista, ser escutada ou acompanhada exatamente assim como é".

Parker J. Palmer


Boa parte de minha vida, fui remunerada por meus conselhos. Ainda hoje, apesar do coaching ter transformado isso.
Nos meus melhores dias, tenho boas opiniões e experiências. Nos meus piores, sou dona da verdade e uma impiedosa chata.
Hoje tenho mais consciência de como minhas opiniões não solicitadas podem magoar. Mas ainda não sei bem como melhorar.  Por isso me interessei por um texto que dizia para evitarmos o conselho, quando ele não for solicitado.
Gaëlle Boissonnard

Sabe aquele momento de desabafo, quando se está sofrendo muito? Pois é, nada de conselho ou frase de "consolo".
Pode ser a perda de alguém querido. Uma saudade apertada. O fim de um relacionamento. Uma crise no casamento. Um momento difícil no trabalho.
Todos aqueles momentos em que nos sentimos menores, desprovidos, machucados.
Nestes momentos, o conselho pode ferir mais do que curar.
Não adianta sequer tentar dar "apoio" ("você é incrível",  "você vai sair desta", "você pode mais que isso").
Não, melhor que o conselho, é a presença.
Um colinho, às vezes, vai bem. Um ouvido empático. Boas perguntas: "como você está se sentindo". "Do que você precisa agora?". Ou o silêncio. Sou cada vez mais fã do silêncio (não que eu saiba praticá-lo...).

Olhando para trás, vejo como falhei miseravelmente com algumas das pessoas que eu mais amo. Vou tentar melhorar. Guardar meus conselhos para quando forem pedidos.
Por agora, é buscar responder com empatia incondicional, com amor, com presença tranquila.
Quem sabe, receberei o mesmo?


27.4.16

Metamorfónelope

A espada virou agulha.
Assim tem sido.

Uma lentidão de quem quer mais ver menino crescer do que desbravar oceano.
Uma saudade de casa, toda hora, uma vontade de dar colo e fazer janta.
O Ulisses está bem vivo, mas parece que dorme. E a Atenas, a Diana. a Mulher Maravilha.
São tempos de fazer sem pressa, ah, tentação mesmo de quase não fazer nada.
Tempos de menos, seguir o que o coração manda.
Paciência germinando, tristezas eventuais.
Crescem em mim Coras Coralinas e Manoeis de Barros.
O vaivém da linha colorida amarrando a vela do barco. O alinhavar das palavras costurando planos, possibilidades, vontades. Um de cada vez. De-va-gar.
A delícia de esperar, agora de ventre vazio de criança, mas prenho de sonhos.
Sei que é preciso sair da cadeira de balanço e ir roçar um pouco. Já vou.
Mas agora, só agora, remexo o mingau no forno, tiro a poeira da aldeia ancestral de onde nasci, mulher.

25.4.16

O melhor lugar do mundo

Lucrécio Brasil

O melhor lugar do mundo é o aqui e o agora, diz Gilberto Gil. Mas Inhotim chega bem perto.
Ali, na costura da obra humana com a natureza, me apaixonei.
No recorte das paredes coloridas de Oiticica em contraste com verdes de planta e água.
No compasso claro escuro das trilhas cheias de luz alternado com o abrigo das galerias.
O abafado e uterino som da terra, onde dá vontade de deitar e ficar assim para sempre, no pulso do ventre do planeta.
O calor das alamedas sinuosas, o escurinho gelado da Cosmococa.
O banquete de cores, de flores, de expressão humana.
O silêncio.
Caminhei com pouca trégua entre alamedas, o coração saltitando entre bonitezas de homem e de Deus.
Por vezes dava vontade de desistir, pois há muita lonjura. Mas sentadinha por alguns minutos, recobrava o fôlego para perder o fôlego uma vez mais.
Criança, velho e cisne. Tudo se mistura. Assombroso. De sombra e de causar estupefatos e poemas em todos os poros do corpo.
Queria morar em Inhotim. Caminhar todos os dias para ver o Agave-Polvo, os céus caleidoscópicos que fizeram meus filhos ouvir novo sentido em Lucy in the Sky with Diamonds.

Lucrécio Brasil
Voltei assim, com brotos por todo o meu dentro. Brotos de sonho, de projeto, de labor.
Experienciar o sonho realizado de Inhotim despertou meus próprios sonhos.
Sonho de Brasil onde se trabalha duro, onde tudo é limpo, a comida é boa, todos colaboram e convivem em harmonia e com respeito. Há muito horizonte.
Só vi beleza. Na vegetação suntuosa. Nos muitos empregos gerados. Na visão de ensinar arte em várias camadas, que a arte é bálsamo, é cura, é esperança.
Estou banhada em jardins, apaixonada pela vida. Quando o medo e a tristeza vierem, invocarei as palmeiras azuis, as árvores do viajante, as flores, as gramas, a cornucópia de sons e estalidos das trilhas,
Cheguei, mas não voltei.
Sempre haverá caminho enquanto Homem e Natureza puderem comungar em tal profundidade e conexão.

PS: se você não foi, vá. Minhas dicas:
# Dois dias é o mínimo, é muito para ver e é bom digerir.
# A comida lá dentro não é barata, mas é excelente. Vale a pena planejar-se para um dia no Tamboril e um dia no Oiticica.
# Chegue na hora em que abre e aproveite veredas vazias.
# Um dia a pé, um dia de carrinho. Vale a pena o investimento.
# Cansou? Rede na Cosmococa, vale até soneca.