Desfazendo nós

Eu, mais do que nunca, tenho sentido a responsabilidade de estar cuidando do próprio caminho.
Ninguém pode trilhá-lo por você. Nem mesmo guiá-lo.  Mesmo os muitos presentes que recebi sob a forma de inspiração, exemplo ou apoio... Mesmo eles eu elegi acolher, deixando muitos outros pela estrada.
Esta semana recebi uma nova oportunidade de acolher ou não um presente: minha terapeuta pediu-me para plantar a questão do desapego em meu coração .
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Confesso, fui pega de surpresa. Desapego? Eu sou desapegada. Eu  prego o desapego. 
Assim eu pensava.
Mas acolhi. E a  plantinha deste pensamento foi virando desassossego, provando uma vez mais o quanto ainda tenho que aprender neste caminhar.

Na minha reflexão, logo encontrei algumas formas de apego:

1) Material
2) A minhas ideias
3) Às pessoas

O primeiro é para mim o mais fácil.  Pois tem sido relativamente fácil desfazer-me de minhas coisas, não comprar tanto, começar a andar de ônibus e tantas outras mudanças ligadas ao ter menos. 
Mas é mais fácil porque nunca me faltou afeto ou segurança. Por isso não sofro em ter menos, já tenho muito. Sou grata por ter podido construir a base deste desapego em cima da abundância e não da falta. 
Doar nossas coisas quando já sofremos perdas profundas ou quando temos pouco. Este sim é um desapego material mais admirável do que o meu.

No entanto, é no intricado labirinto de meu apego a pessoas e ideias, que tropeço.
Sim, sou inteligente e boa articuladora de ideias. Disso tenho orgulho e faço  minha profissão. Mas na vida, cada qualidade tem seu continuum. No meio, a virtude. Nas pontas, a omissão ou o exagero.

Não costumo me omitir de produzir uma ideia. Mas frequentemente exagero no apego ás ideias que concebi.
Quero que sejam aceitas. Quero que sejam implementadas. Quero que sejam elogiadas.

Na raíz deste apego, meu  amor desmedido pelas pessoas, a ponto de pensar que eu sei o que é melhor para elas. A ponto de eu brigar com elas para que me ouçam, me obedeçam. A ponto de desqualificar quem mais me importa.
Por mais de três décadas de minha vida, tentei mostrar O CAMINHO para meus irmãos, minha mãe, meu pai, meu marido, meus amigos.  Hoje sei que meu caminho não serve para mais ninguém.

Ainda insisto um pouquinho aqui e acolá, mas aos poucos vejo que é desnecessário e nocivo. A verdade é que não sei a resposta certa para as perguntas deles. Quero me desapegar desta ilusão.

Ainda assim, me apego. Posso não proferir as diretrizes criadas em minha cabeça, mas sofro, em silente angústia, temendo que as pessoas que eu amo vão se enroscar em armadilhas, vão sentir dor.  E meu amor por elas, somado ao meu amor pela minhas ideias arrasta-me para o fundo, em uma tentação em ajudar quem não quer (ou não pode) ser ajudado.

Mas ainda não é tudo. Finalmente, o maior apego de todos. O mais difícil por enquanto. O apego pelas minhas expectativas.  Expectativa que é esperança com exigência.  
Aqui preciso, mais que nunca,  praticar o desapego.  Entender que do outro lado, está um outro coração com possibilidades e desejos muitas vezes diferentes dos meus. Esperar menos. Esperar coisas diferentes. Fazer uma pequena sugestão e parar por aí. Protegendo o meu próprio coração.

Talvez seja a hora, quem sabe, de praticar um novo apego. O apego a estar um pouco mais comigo, cultivando este caminho meu. Respeitando a minha coragem. Buscando fazer o suficiente para mim e para o outro e estar satisfeita com os resultados limitados desta abordagem. 
Aceitando que tenho o sol dentro do peito, mas que há um custo em doar, amar, falar, ter ideias.
E este custo é não receber, não ser amada, não ser ouvida na medida de minha expectativa.

Minha terapeuta enviou-me flores, convidando-me a observar sua beleza impermanente e aceitar que há uma finitude e um limite para tudo.
Acendi uma vela para meu coração, um pouco triste ao perceber que meu sol interior não faz milagres

Quem sabe é este desapego que tenho que praticar.

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