Uma Mulher Qualquer




Era um dia qualquer, de um ano qualquer, em qualquer cidade na vida de uma mulher qualquer.

Mentira.
Era o dia mais importante de 2009. O dia em que ela, no finalzinho de seus 36 anos, incendiou-se. No meio do escritório.
Era meio de outubro. Era São Paulo.
Tudo foi muito estranho.  Ela havia chegado como sempre.  Apressada, relembrando as reuniões do dia. Pensando se daria tempo de buscar os filhos no horário, já um pouco culpada que a pequena não gostava de sair tarde do berçário. Mas saía. Todos os dias, depois de uma jornada de 9h às 20h, quase apagando a luz...
Havia sido um bom feriado.  Sonhos vagos de mudar de vida, compartilhados com um quê de esperança e muito de tristeza.  Era preciso mudar, “vou tirar umas férias e pensar no assunto”. Mentir para si mesma é a pior mentira.
Fazia tanto tempo assim? No momento em que passou o crachá pela catraca, uma barreira entre ela e o mundo lá fora já havia coberto tudo de nuvens.
O relógio andava inclemente.  Comprava tempo desesperadamente, pedindo comida em casa; fazendo programa em shopping. Já quase não ia para o Rio de Janeiro, onde estavam os pais e irmãos. Andava exausta, sua pequena tinha refluxo e não viajava bem.  Já não tinha mais paciência com nada.
A sua famosa disposição havia virado um fio tênue. A casa de praia abandonada.  Nenhuma roupa cabia, vivia vestindo-se com roupas do tempo de grávida.
Se pudesse, só dormiria. E comeria sobremesas, que a fome era muita e nada mais satisfazia. 
As crianças eram adoráveis, mas que cansaço. A vida ia aos tropeços. Isso é sucesso? No fundo sabia que não. Mas era tão fundo, que nem ousava olhar.
Chegou em sua sala de executiva e não sentia vontade de executar nada.  Olhou com preguiça para a agenda eletrônica. “E seu pudesse tirar a tal semana de férias?”. Olhou novembro, dezembro e suspirou “Claro que não, há esta reunião importantíssima e este projeto inadiável”. “Bom, quem sabe outro dia”, pensou. Sabendo que este dia nunca chegaria.
Nesta hora, chegou a colega estressada por cinco horas no voo apertado de um país distante. “Tenemos demasiados problemas... A, B, C”.  A lista era infinita.
 E então... Começou.
Um calor estranho subia do estômago. Subia e, ao mesmo tempo, sugava todo o oxigênio dos pulmões.  Só teve tempo de sussurrar apressada. “Amiga, com licença, falamos depois. Agora estou me sentindo meio indisposta”.
A colega saiu ressabiada, até um pouco ofendida. Mas saiu. E foi a tempo.
Fechou a porta da sala e abriu a boca.
SCCHVRRUUOWWWGRR.
Uma torrente de lava e sangue subiu pelo esôfago e derramou-se ali mesmo, no tapete cinza e impessoal.
O material sintético recebeu ávido a torrente incendiária e tudo se consumiu em segundos. Cadeira, papeis, armário.
E também ela.
Sufocada e surpresa, percebeu que havia virado cinzas.  Apenas cinzas.
Levantou-se. 
No chão encontrou o notebook miraculosamente inteiro, indiferente ao cenário de Pompéia ao redor.
Abriu a tela. Resgatou a agenda. E arrancou impiedosamente todos os compromissos.  Agora nada importava. Ela era apenas um punhado de cinzas, o que tinha a perder?
Escolheu um retiro provisório.  Avisou à chefe sem muito espaço para negociações.  A sogra veio ajudar o marido a ficar com as crianças. E ela foi, levando alguns livros, um caderno em branco, cem quilos bem distribuídos por seu corpo exausto.
Assim passaram-se sete dias, num conveniente feriado de Finados. Ela quase achou graça da coincidência. “Estarei morta?”, refletia entre um talo e outro da comida desintoxicante.
Os dias se passaram em certo contentamento.  Conversas com amigos recém-descobertos, massagens, dança criativa.  E muito tempo só, no seu quarto de monge.  Entre livros e páginas em branco, a vida incinerada tinha um gosto bom.
Chorou muito e a toa, por vários dias. Escreveu planos, sonhos e fez muitas contas. A reserva construída poderia ser útil? E se voltasse para o Rio de Janeiro? E se?
A palavra possibilidade, pela primeira vez em muito tempo, pareceu possível.
Voltou para a casa, o marido, os filhos e o emprego. E começou a desconstruir a vida antiga.
Primeiro, decidir o que fazer.
Pediu demissão. Marido transferido para o Rio. Despedidas.
Chorou mais ainda, preocupada que as lágrimas virassem lama, misturando-se com as cinzas. Mas não.
Era quase natal quando saiu do escritório pela última vez.   O crachá já não pesava.  O marido já estava no Rio. Tudo estaria bem agora?
Os seis primeiros meses voaram.  Encontrar apartamento em meio à especulação do mercado imobiliário carioca.  Acalmar as pessoas estupefatas com a decisão de deixar uma “carreira dos sonhos” para viver de mesada e renda.
O primeiro plano foi cumprido: ser pedestre.
Passou a caminhar muito e para todos os lados.  A casa foi arrumada, encontrou uma empregada. As crianças na escola.  Começou novas atividades, o Pilates, massagens e afins.  A vida era boa. Mas faltava algo.
Passado o frenesi de reorganizar a vida doméstica, sentiu falta de produzir. Não se sentia pronta para um novo trabalho e tampouco queria voltar para um escritório. Mas precisava de algo para manter as cinzas unidas. Afinal, o vento lá fora era intenso, poderia levar seus pedaços frouxamente conectados.
Começou a escrever.  Primeiro,  banalidades.  Depois sobre o caminho novo que se desenhava. Até que um dia acordou e viu. Já não era mais cinzas. Um pequeno ovo, frágil e desafiador.
Dos cem quilos iniciais, já estava em noventa.  Dez quilos deixados nas esquinas caminhadas, nos escritos. Em cada vez que havia respirado fundo um ar novo.
Andava entusiasmada. Andava de cabelo novo, prescrevendo a todos uma boa mudança. Sentia-se invencível.
Abriu uma empresa. Uma consultoria em planejamento estratégico, com um nome bem sonoro e ininteligível. Fez sua primeira proposta. Fechou a segunda.  Montou uma marca linda, fez investimentos em marketing comprando itens promocionais em grande quantidade. Gastou dinheiro.
O ovo havia eclodido e já era um passarinho novo.  Cheio de fome de voar, cheio de sonhos e ambições. Nenhuma experiência ainda. Mas ainda não sabia.
Pensou que os anos passados seriam suficientes para que os negócios prosperassem. Pensou que os velhos saberes seriam suficientes. Claro que não foram.   
E aí ele veio. Implacável.
O Medo.
As contas não fechavam.  Por mais que houvesse uma reserva, seria possível manter este estilo de vida, com massagens, clube, pequenos luxos? 
Os trabalhos eram poucos, afinal ela não sabia, mas estava entre mundos.  O mundo corporativo, grandioso e caro. E o mundo da rua, sem sobras e cauteloso.
Foram tempos difíceis.  Caminhava desassossegada, temendo voltar à antiga vida.  Aquela vida num escritório, com crachá, reuniões intermináveis.
Nada de rua, encontros ao acaso, vida inesperada.
Não. Não poderia voltar para uma gaiola.  Por sorte, não era totalmente tola. Cercou-se de amigos e de ajuda.
Buscou novos caminhos. Bateu em novas portas, fez cursos (gratuitos, é claro)...  Conheceu novas possibilidades.
Ela que jurava que nunca seria nem consultora, agora embarcou ávida por conhecer um caminho empreendedor.
Conheceu gente da arte e dos negócios. Reencontrou uma colega dos tempos de empresa. Juntas começaram um plano. Um negócio ambicioso e diferente. Uma casa para abrigar empresas e pequenos empreendedores.
Assim passaram-se alguns meses, entre reuniões semanais, muita escrita e pesquisa. Ao fim de tanto trabalho, ouvindo muitas pessoas, percebeu que ainda era demasiadamente grande. Muito dinheiro, muito risco. Tanto tempo no plano das ideias tinha lhe tirado a perspectiva realista.
No entanto, nunca é tarde. Numa tarde preguiçosa, reviu todo o projeto. Nada de casa. Fariam algo mais simples. E assim começou um pequeno negócio de comidas.
Durante este tempo todo, os escritos viraram inspiração para outros que buscavam uma saída. Os amigos já haviam percebido seu talento para a mudança.  Começaram a encaminhar pessoas. No começo poucas... Em busca de organizar as ideias, de tentar algo novo. Até que teve outro estalo. E se eu ajudasse pessoas e pequenos negócios, ao invés de grandes empresas?
Juntou-se com outra amiga, mais experiente no lidar com estes dilemas. Juntas montaram uma palestra que virou um pequeno curso... E assim começou uma nova odisseia.
Trafegava em redes sociais, compartilhando saberes e aprendizados. Os chamados e encontros aumentaram. Começou a encontrar oportunidades novas. O dinheiro, ainda não era tanto. Mas sentia-se mais confiante, mais animada. Fez novos parceiros, criou novos projetos.
Seu caminho se fazia sob os pés.  Já eram vinte quilos a menos. Já era outra mulher. Tudo havia começado com um desejo de mudança. Desejo que virou coragem. Coragem que virou decisão e planos.  Decisão e planos virados em mudança realizada que virou caminho que virou histórias.
E assim, navegando em novos meios, de gente artista e gente de tecnologia. De jovens e maduros.  Assim foi se refazendo. Ainda com muito medo, ainda com muita vontade. Já era um pássaro mais confiante.
Agora era tempo de voo.  Claro, teve o seu preço.  O casamento chacoalhado por tanta agitação. A vida doméstica e seus tropeços.
Lá fora, tudo era convite e sonho.  Era preciso equilibrar pratos, era preciso muita concentração.
Mas agora ela estava viva e o céu a esperava. Fênix renascida.  Não era mais cinzas. O fogo ainda queimava dentro do peito, mas não a consumia.
Ainda não sabia onde tudo isto ia parar. Mas tinha fé e dava seus saltos. Difícil com os pratos na mão, mas faria o quê? Prosseguir. Sempre.
Eu disse no começo que era uma mulher qualquer?
Mentira.
Esta mulher sou eu e esta é a minha história.

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