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Organizadora de Ideias. Coach. Empreendedora. Escritora. Ex-executiva de multinacionais, por onde navegou 15 anos. Há quatro, cultiva o Viver Mais Simples.

30.9.11

Tempo de plantar

Quando me casei, li vários textos da Bíblia, buscando o que usaríamos na cerimônia.  Escolhemos um texto que até  hoje me emociona, do Eclesiastes.
sargacal.com
"Existe um tempo próprio para tudo, e há uma época para cada coisa debaixo do céu:
um tempo para nascer e um tempo para morrer;
um tempo para plantar e um tempo para colher o que se semeou;
um tempo para matar, um tempo para curar as feridas; um tempo para destruir e outro para reconstruir;
um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo para se lamentar e outro para dançar de alegria;
um tempo para espalhar pedras, um tempo para as juntar; um tempo para abraçar, um tempo para afastar quem se chega a nós;
um tempo para andar à procura e outro para perder; um tempo para armazenar e um para distribuir;
um tempo para rasgar e outro para coser; um tempo para estar calado e outro tempo para falar;
um tempo para amar, um tempo para odiar; um tempo para a guerra, e um tempo para a paz."
Tenho me visto assim, reaprendendo sobre tempos.  Sinto brotar um desejo de paz, de recolhimento, de espera.
Começo a descobrir de onde vinha o sentimento de serenidade durante minhas gestações.  Um aviso de meu corpo sobre como é bom esperar, como é bom nutrir uma semente e deixá-la prosperar no seu próprio momento.  Sempre foi um período de saciedade, de equilíbrio, de uma felicidade tranquila.
Dei-me conta esta semana de que estou aprendendo a gestar sem estar grávida.
Gestar este novo corpo, em constante transformação, faminto de novidade mas sedento de pausa.
Esta nova vida, incerta e real.  Bonita e assustadora. Poesia e sombras.
Este novo jeito de trabalhar, de criar os filhos, de me relacionar com as pessoas. De me reconhecer no mundo e em mim.
Percebo agora como herdei o espírito semeador de meu avô Celso.  Sou fazendeira de mim mesma, plantadora de sonhos.  E, como ele, preciso abraçar a chuva como uma benção. Mesmo que tempestade... 
Saber esperar o brotar.
Pois semear está em minhas mãos, mas depois é luz, água e um pouco de sorte.
Hoje aprendo com as estações. O inverno no peito. O tempo de ver as folhas caírem. Os dias de brotos novos. O coração incendiado no fogo de verão.
Com minhas mãos nuas, revolvo esta terra.  Estou cansada, mas satisfeita.  Plantei boas sementes, numa terra boa.  Agora é esperar. 
Que venha a colheita.

28.9.11

Qual é o seu maior medo?


Meu maior medo é finalmente me deparar com um obstáculo ou adversidade que quebre meu espírito.
Foto Simxer Fernandes


Até hoje, nada me atemorizou de verdade.  Como já disse antes, não passei por nenhuma situação de injustiça, doença ou fatalidade que desafiasse de maneira extrema minha fé no Bem, em Deus e em mim.
Meu maior medo é encontrar algum infortúnio ou sofrer alguma coisa que destrua este meu sentimento de "invencibilidade".
Algumas coisas fariam isso: algo trágico envolvendo meus filhos ou outras pessoas que eu amo.  Eu ficar muito doente e não haver cura.  Eu descobrir que uma pessoa que amo muito é cruel ou má.
Espero nunca ter que enfrentar este medo. E desejo, do fundo do meu coração, encontrar forças para superá-lo, caso seja inevitável.


Este é um post da série "6 Bilhões de Outros", inspirada neste projeto aqui.
Mais detalhes do projeto neste post.

26.9.11

Os dois lados da moeda

Faz tempo que não falo de finanças aqui no blog.
E hoje deu vontade de contar um pouco de lições sobre economia aprendidas neste Viver Mais Simples...
ô
Não há verdades absolutas sobre como lidar com dinheiro, depende de como cada um se relaciona com ele. Por isso (e para exercitar pensar com a cabeça do outro), vamos fazer assim:

Usar sempre a função crédito do cartão.
Se você tem uma renda garantida e/ou um bom controle de suas despesas, pode se beneficiar da abordagem "Amor Sem Escalas" e aumentar substancialmente seus pontos de milhagem.  Ao longo do ano, todos os supermercados podem virar uma parte daquela viagem sonhada...
OU
Não usar nunca a função crédito do cartão
Se você tem uma renda incerta, memória fraca ou muito medo de se endividar pode ser mais prudente usar sempre a função débito (ou mesmo dinheiro vivo).  Assim fica tudo ali no curto prazo, sem chance de "esquecer" um compromisso.

Pagar tudo à vista
Eu odeio dever, líção passada de meu avô  para meu pai para mim... Prefiro juntar o dinheiro antes de uma compra grande.  Assim posso pedir descontos e controlo melhor meu fluxo de caixa.
OU
Usar o parcelamento a seu favor
Mas se você precisa comprar algo e não tem liquidez para pagar á vista, vá fundo no parcelamento.  Só tome cuidado para não pagar juros, isto não vale mesmo a pena.

Comer em casa sempre que possível
Há reportagens dizendo que a inflação nos restaurantes foi 10% em tempos recentes.  Também há  os outros 10%, aqueles da taxa de serviço. Sem contar aquele café ou couvert. Ou o manobrista, para os que não pedestres como eu. Também ajuda a não engordar, mas aí já é outro post...
OU
Comer fora de forma inteligente
Se você adora comer fora, como eu, pode começar a perceber que talvez seja possível encaixar este hábito numa rotina econômica.  Compensando no supermercado; escolhendo lugares com comida  deliciosa mas não muito cara. Aproveitando os pratos do dia, pulando a sobremesa e o café. Não tomando bebidas alcóolicas...
Eu sou cliente fiel do Cine Ipiranga Bistrô aqui perto de casa. Adoro o ambiente e a comida variada.  Favoreço os almoços executivos e nunca me arrependo. E recentemente descobri o delicioso Boteco Cabidinho", um restaurante pé-sujo bem despretensioso e com um prato de pernil incrível!! Valeu totalmente a pena...

Aproveitar ofertas em sites de compra coletiva
Viajar, comer fora, fazer tratamentos estéticos... Presentear, revelar fotografias...
Muitos prazeres da vida podem sair mais barato usando sites como Peixe Urbano ou Imperdível.
OU
Evitar ao máximo sites de compras coletivas
Eles podem ser um convite a compras desnecessárias. No começo, me empolguei tanto que comprei itens que me custariam mais para serem buscados do que o desconto valia!
A regra de ouro é: só compre o que for realmente útil para você, de preferência algo que você compraria de todas as maneiras.


Não sou de ferro, então deixo também algumas dicas unilaterais (fiquem á vontade para postar um OU bem grande!):

1) Comprar os produtos na forma mais "bruta" possível. 
Ex: laranja vs. suco de caixinha. Concentrado de guaraná vs. Guaravita.
2) Usar transporte público sempre que  possível. Ou caminhar.
3) Procurar programas gratuitos ou promocionados (ex. teatros municipais uma vez por mês)
4) Para cada roupa que  entra, doe duas. Mesmo para livros, cds e outros tipos de "stuff". E pense duas vezes antes de comprar.
5) Faça bom uso da internet: pesquise e compre sem intermediários
6) Faça festas de aniversário alternativas
7) Seja criativo a partir de perguntas: como me exercitar de forma mais barata? como me divertir sem gastar dinheiro? Como renovar meu guarda-roupa sem gastar muito? As respostas podem gerar muita economia.
8)Conheça soluções alternativas: hoje comprei uma camiseta na Citycol para uma peça da escola do Léo. Muuito mais barato do que a da Hering.
9) Saia do pedestal:  pergunte a amigos "duros" sobre seus programas e você conhecerá locais incriveis!!
10) Compre menos. Simples assim.


Para  mais pontos de vista sobre como usar dinheiro a favor de você, veja estas sugestões:

Blog da Mara Luquet: Mara já quebrou duas vezes, aprendeu a lição e hoje compartilha sua experiência.
Mais Dinheiro: dicas práticas sobre como viver uma vida memorável lidando melhor com o dinheiro.
Get Rich Slowly
Zen Habits
Unclutterer

Sobre dinheiro e viagens:
Fluente in 3 Months
The Art of Non Conformity




23.9.11

Sobre confiança e suspeita

Tenho refletido bastante sobre minhas expectativas sobre os outros. Expectativa, como já escrevi antes, pode ser esperança com exigência.
Um grande calcanhar de Aquiles meu....
fragmentsofme2.blogspot.com
Durante estes devaneios, lembrei-me de três momentos onde assumi que o outro ia usar meus olhos para me enxergar.
E quebrei a cara...
Mas como todo erro pode se converter em lição, registro aqui para aprendizado.

A primeira vez, foi na época de faculdade. Eu tinha meus vinte anos e havia um colega veterano com quem a relação era difícil.  Uma noite, ligeiramente embriagada, me deu uma vontade de remendar a história.
Falei com ele que agora seria diferente, que eu ia me esforçar para sermos amigos, etc. etc. E emendei: não estou falando isso porque estou meio alta, não. Amanhã te ligo para confirmar.
Liguei e deu uma confusão danada. O rapaz achou que eu estava com segundas intenções em relação a ele. A namorada dele também. E um ex-namorado meu, amigo dele, também.
Enfim, quis agradar do meu jeito, falando sobre uma intenção... E fui mal-interpretada.  Depois tive que aturar a crítica do ex, a implicância da namorada e o desprezo dele.

Décadas depois, já adepta do Viver Mais Simples, estava num café lá em São Paulo.   Olhei para um moço e me deu a impressão de que ele estava precisando de alguma ajuda.  Levantei e perguntei a ele, "Tudo bem? Você precisa de alguma ajuda?".  Ele reagiu violentamente: "Estou ótimo, o que é isso? Que  abordagem estranha!".
Foi um susto muito grande (sem contar o risco de apanhar...).
Ele devia estar em sofrimento, pela reação exarcebada. Mas porque seria considerado normal uma estranha te perguntando sobre como você está ? Pela reação dele, soou mais como uma invasão de privacidade.

Finalmente, há algumas semanas, encontrei uns estrangeiros no ônibus São Paulo x Rio. Tentei ajudar o máximo que pude:  uma precisou de auxílio para comprar a passagem de volta, ajudei. Pus todos num táxi para Ipanema. Até aí tudo bem.
Mas um deles era um inglês. Durante nossa conversa, descobri que ele trabalhava numa agência que atendia a J&J e que tínhamos até uma conhecida em comum. Encorajada por esta coincidência, me ofereci para levar o rapaz para jantar. Algo que fazia com muitos dos estrangeiros que visitavam o Brasil, no meu tempo de empresa.
Ele ficou meio surpreso e quando me ofereci para encontrá-lo no albergue dele, falou: pode deixar que eu te mando um sms quando estiver pronto.
Bem. Ele nunca mandou o tal sms nem respondeu o e-mail que mandei quando achei que já estava meio tarde para fazer o programa.

Fiquei triste, decepcionada e até com uma certa raiva nestas três ocasiões. Mas pensando em retrospecto, percebi que meu erro foi achar que o outro interpretaria minha intenção como eu interpreto a vida.

Eu tendo a acreditar na bondade intríseca das pessoas, até prova em contrário (lógico que tomando precauções pela minha segurança.).
Também tenho uma enorme disponibilidade para o inesperado.
Finalmente, sou muito extrovertida e adoro conhecer gente nova.

Mas não posso assumir que todos são assim:

Algumas pessoas interpretam uma moça meio bêbada falando de querer construir uma amizade como uma cantada desastrada.

Outras pessoas não acham engraçado uma estranha perguntar se eles precisam de ajuda.

E claro, um estrangeiro dificilmente confiará em alguém que conheceu num ônibus. Mesmo se ela lhe der um cartão, falar de referências em comum, etc.

Eu que sou diferente... Conheci um guia de turismo num ônibus da Turquia e me arrisquei (acompanhada pelo meu marido)  a participar de um tur com ele.  Tive medo, mas foi ótimo. Pensando bem, poderia ter terminado em sequestro, mas prefiro acreditar que não.

Voltando a expectativas.... Fiquei triste das três vezes, por que minhas expectativas foram frustradas:
De ser considerada uma pessoa especial porque me ofereci para ajudar ou reavaliar um relacionamento. Por ter me interessado pelo outro.
Por ser uma pessoa interessante, convincente e com um alto astral incrível...
Vendo assim, a quem mesmo eu queria agradar?
Ao final, fico com uma sensação que não fiz estas coisas pelo outro, mas por mim e olhando a situação pela minha perspectiva apenas.  E por isso agradeço a lição de humildade...

E vocês? Algum susto por uma reação diferente da esperada? Contem para mim...


21.9.11

Você vive melhor do que seus pais?


Difícil dizer.
Tenho um pouco do sentimento de "enxergo longe porque estou sobre o ombro de gigantes". Eles sendo os gigantes, deixemos logo claro...
O caminho de meu pai e minha mãe certamente me ensinou muito. Poupou muito tropeço.
Tive privilégios que eles não tiveram. Ter pai, o que minha mãe deixou de ter com nove anos.  Não ter que sair de casa para estudar, coisa que meu pai fez com doze anos.
Tive mais conforto material também.  Quiçá mais informação, liberdade.
Mas acredito que meus pais fizeram o melhor com o que tinham e  que eu apenas faço o mesmo.
Peguei um avião pela primeira vez com cinco anos. Meus pais, muito mais tarde. Mas meus filhos, ainda mais cedo...
Tudo relativo e difícil de saber se terá/teve papel decisivo na vida de cada um.
O importante? Valores, aprendizados e o incentivo que eles me deram para prosseguir, cada um de seu jeito... Isto trago desde sempre.
No final, é provável que minha vida seja tão somente minha vida, nem mais fácil nem mais difícil do que a vida de ninguém.
Meu caminho tem suas próprias pedras, seus próprios buracos.  Tive algumas mordomias a mais? Talvez. Tive algumas vantagens a menos? Talvez.
Não importa. Sou feliz com minha história. E grata pela história de meus pais.
No final, tudo se soma num caminho entrelaçado.


Este é um post da série "6 Bilhões de Outros", inspirada neste projeto aqui.
Mais detalhes do projeto neste post.

19.9.11

Carta aberta a minha mãe

Mãe,
Eu te amo. Sempre te amarei.
E agora que sou mãe também, entendo mais você e suas escolhas.
http://www.sohoparenting.com
Ter filhos é uma fonte inesgotável de grandes surpresas e pequenas alegrias. Mas é de certo modo uma prisão.
Escolha para todo o sempre.  Responsabilidade infinita.  Decisão nossa recordada por eles, todo o tempo.
Nem quero pensar como será o dia em que minha Olivia vier cobrar a conta de meus supostos erros, dedo em riste e coração de vulcão... Tenho certeza que você terá bons conselhos para mim neste dia.
Em todas as outras relações, há alguma possibilidade de justiça.  São dois adultos, dois irmãos, dois pares. Na relação mãe e filho, não há justiça... Somos sempre o lado culpado, seja por julgamento alheio ou nosso próprio.  Sinto na pele as marcas de ferro e fogo, quando um de meus filhos desnuda meus mais sombrios tropeços como mãe.
Claro que vale a pena. Cada sorriso, cada abraço, cada momento. Mas tudo  parece tão frágil e demanda tanto esforço.
Meus filhos ainda são pequenos e vivem na minha saia. Mas eu já imagino o dia em que sairão de casa para um noite infinita. Ou sairão de casa por toda uma vida.
E aí, temo o dia da prestação de contas.  Que tudo que eu plantei, semeei, bom e ruim, está sendo acumulado no coraçãozinho deles. E só Deus sabe como eles interpretarão os meus motivos, minhas intenções, meus reais desejos .
Hoje sei que o nosso possível nem sempre é suficiente para eles.  "Eu era mais feliz em São Paulo", grita o mais velho, enfurecido.  Ele nem desconfia das milhas que andei para estar aqui, doída, ouvindo esta acusação.
Por isso começo a imaginar, minha mãe, quantas acusações injustas eu mesma fiz e faço, sem saber seu contexto e suas razões.
Fiquei  muito comovida com nosso último encontro.  Suas pequenas delicadezas: os presentes feitos por você, a resignação com meu  atraso.  O brigadeiro verde para os netos, o orgulho de mostrar a casa "nova/velha". A permissão para um cochilo salvador. O jeito gentil de pedir para encerrarmos a noite.
No entanto, de tudo, o que mais me marcou foi você  me devolver a minha carta, a que eu escrevi para você aos meus doze anos.
Ali, tudo parecia intacto.  Eu ainda não tinha virado a adolescente feroz que virei. A distância não parecia significar muito, tamanho o nível de detalhes descrito: o boletim, a paixonite, uma pequena revolução na escola.  Tão cotidiano, como se eu estivesse falando com você por telefone. Como se não fosse Brasília em tempos pré-internet, fosse Campos ou Niterói...
Deus sabe o que tenho trilhado, na minha busca por inteireza.  Sobrou pouco tempo e energia para nossa história. Mas este domingo deixou um gosto diferente, especial.  Está tudo ali, intuído e escrito. Um novelo esperando por ser desenrolado mansamente, com a calma que só conhece quem sofreu em surdo desespero por querer fugir e querer ficar.
Dar-me conta que o recurso do "banho de horas" das crianças foi um presente seu. Nada ecologicamente correto, mas absolutamente necessário para dar conta das atividades do dia, sem empregada nem babá.
Quantos outros presentes você me deu, que hoje uso sem pensar, agarrada na faina doméstica ancestral.
Quem diria que a executiva de 9h às 20h viraria Patricia, na beira do fogão fazendo batatas sautée. Tirando férias de alguns minutos para ler um livro. Prisioneira deste amor de mãe que nos consome e nos une.
Mãe. Eu te amo e sempre te amarei.  Precisamos saber agora como recontar nossa história.
A carta foi um bom começo. Obrigada.
Leticia

16.9.11

De todas as maneiras

Um de meus mais renitentes perigos é o de projetar meu caminho no outro.
Sim, precisei rasgar-me, reinventar-me.  Precisei abandonar um estilo de vida abruptamente.
Precisei escrever sobre isso publicamente, expondo minha alma nua para todos.
Este é meu jeito de caminhar.
http://cendrinelim.com
Mas hoje estou mais calma. E posso apreciar outros jeitos de viver simples.
Estou aprendendo o comedimento, aprendendo a olhar o outro, aprendendo a discordar com amor.
Ainda falta... Mas aprendo por observação, convívio e admiração.
Esta semana fui presenteada com mais um possível caminhar: o jeito doce, determinado e meio silencioso de minha amiga Iracema.
Num encontro feliz, nestes acasos maravilhosos, pude conhecer melhor sua trajetória.
Ela me contou como fez a escolha de sair da ciranda corporativa há muitos anos. Eu calculo que uns dez, talvez?
Foi uma das pioneiras, entre meus conhecidos, na busca pela tal "qualidade de vida".
Empreendeu, construiu um negócio. Assim nos conhecemos.
Tempos depois, ainda antes de minha virada, ela mudou de novo.
Deixou sua cidade, sua empresa e foi ter seu filho, viver seu amor, dar um novo passo rumo a seu próprio caminho. 
Hoje, trabalha "por conta", experimenta seus limites. E já antevê uma nova transição se aproximando. Calmamente. Com respiração e serenidade.
Ela me contou tudo isso placidamente, sentada numa cadeira do aeroporto.  Linda, elegante, falando devagar e baixo.
Tudo isso, toda esta mudança. E um matiz mais suave, uma fala mansa.  Um jeito de quem sabe o que quer mas não precisa irromper em lava para dizê-lo.
Há vários tipos de luz. Cada centelha tem seu próprio brilho e intensidade. Todas igualmente verdadeiras.
Não há caminho melhor do que o outro. Há apenas caminhos e que feliz sou de ter caminhado por algumas horas lado a lado com Iracema!
Obrigada, amiga.  Até breve.

15.9.11

Você é feliz? Qual a sua maior alegria?


SIM!
Eu sou feliz. Mesmo no momento mais difícil da minha vida, eu sou feliz!
Oficina com Juliana Manhães
Sou feliz por que minha vida hoje é alicerçada sobre minhas escolhas, certas e erradas.
Sou feliz por que posso mesclar pequenas vitórias profissionais com gigantes vitórias pessoais.
Minha maior alegria é estar presente.  Presente no dia a dia dos meus  filhos. Presente quando eu danço. Presente quando desenho meus próximos passos. Presente no meu trabalho. Presente no meu amor por mim e pelo outro.
Sou feliz por ter uma visão clara de para onde quero ir e escolher a todo o momento por onde quero ir.
Sou feliz por que o melhor momento é o agora, com a dor e a delícia dos tropeços da estrada. Dos encontros e desencontros. Do que foi desejado e do que apareceu de repente.
Sou feliz.
Desconstruí-me inteira para construir esta felicidade.



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12.9.11

Sentir-se dentro da pele

Tenho ficado muito emocionada ao ver pessoas praticando sua paixão. O nível de arrebatamento, a entrega do corpo, o brilho no olho, o quase sem ar deliciado.
Vendo rodas de Jongo e outras danças brasileiras, posso sentir este transe no outro... E aprendiz que sou, anseio pelo momento em que também voarei assim...
Lucrécio Brasil
Perguntei a uma amiga: "você dança desde de pequena"? E desvelei uma história linda, de criança passando férias no interior do Ceará. Visitando avós no "interior do interior", dançando forró no terreiro, sob a luz de um lampião.
Só quem já esteve na presença de um lampião -e eu estive- sabe da beleza dos claros e escuros, das formas sugeridas e não vistas inteiramente.  Imagino que dançar entregue sob esta luz deva ser uma experiência muito marcante para uma criança de sete, oito anos. Sob estes lampiões foi costurada a dança ao corpo de Samara, numa  memória feliz para ninguém botar defeito.
Tenho amigos que se sentem assim quando compõem uma música, quando cantam, quando contam histórias.
Eu me sinto assim com as palavras. Quando elas pulam do meu peito numa conversa, quando elas entram pelos meus poros ao ver uma pessoa narrando sua paixão e suas crenças profundas.  Por que eu tenho em mim as palavras alinhavadas com minha alma.
Nem todos são das Artes, mas todos temos um coração e, como aprendi com Samara, basta isso para ouvir um batuque reverberar no galope do próprio coração.
Assim me sinto ao descobrir as danças brasileiras.  Ainda desastrada, tímida, mas feliz e caminhando...
Lucrécio Brasil
E muito grata ao ver minha filha de três anos  chorar por que a roda de Cacuriá tinha acabado e agora ela queria ir para a roda de Tambor.  Eu, exausta de tentar não perdê-la no meio da multidão. Ela, fascinada, já começando a se entregar, começando a costurar seus pezinhos com o som da percussão. Feliz em sua saia rodada, preocupada que a flor não caia do cabelo. Querendo ir para o meio de todos, mesmo tombando de sono.
Não sei quais artes brotaram ou esperam por brotar em cada um de vocês. Eu estou reinventando as minhas.
E estar ali, no meio de sons, cheiros e rua.  Estar ali com minha filhinha e sua pulsação e sua felicidade. Valeu  o cansaço, a preocupação, as mil broncas...
Agradeço a Samara que me convidou para conhecer as danças. E agradeço à Juliana, "menina do jabuti", como Olivia a apelidou.
Convido vocês a buscar a sua expressão.  Algum tipo de música, de mexer o corpo, de pintar e bordar. Prometo que, em silêncio e êxtase,  derramado naquele momento, o coração mergulhará numa alegria indízivel.
É como se a pele reconhecesse seu lugar. Minha pele, meu pulsar.  Sejam palavras, sons ou tudo junto misturado...
Recosturemo-nos todos. Nossa pele, nosso coração e nosso sangue bordados entre música, palavras e cores.
Vamos?

9.9.11

Pequenos prazeres da vida

O viver mais simples é baseado em gratidão, estar presente e amar a possibilidade (afinal, viver do impossível pode drenar toda a nossa energia...).
Uma forma de honrar esta filosofia são pequenos gestos de carinho consigo no cotidiano. Singelezas que aquecem o coração e trazem aquela felicidade de criança para a gente.
Estes gestos muitas vezes contém um quê de ritual. Outras vezes são desenhados a partir de memórias felizes, no meu caso, fortemente associadas ao paladar e ao ar livre.
Chá verde com torta de limão na minha caneca favorita...

Meu presente para vocês nesta sexta-feira é uma lista de pequenos atos de amor comigo mesma, para inspirar vocês a encontrarem os seus:
1) Sair por aí tomando um picolé de coco
2) Beber uma xícara de chá
3) Tomar um cafezinho com torta, entre afazeres
4) Comer uma tangerina
5) Ler uma revista preguiçosamente
6) Rir até sairem lágrimas dos olhos
7) Tirar roupa do varal com os filhos
8) Levar as crianças na escola
9) Dormir no mesmo quarto que uma amiga e ficar dando risada até tarde
10) Tirar uma soneca à tarde

E vocês, quais pequenos presentes podem se dar? Como agradar a si mesmos?


7.9.11

Qual foi o momento mais difícil da sua vida?

O momento mais difícil de minha vida é agora.
Jamais tive grandes doenças. Minha fé me consolou quando perdi pessoas queridas e todas eram bem mais velhas do que eu.
Nunca passei necessidade, situação de risco.
Nunca perdi nada.
Mas este momento, de todos, é o mais difícil.
Difícil por ser o mais incerto.
Nunca estive tão solta de estruturas, de fronteiras.
Nunca tive tanta liberdade e ao mesmo tanto medo.
Nunca precisei tanto de minha coragem.
Nunca tive tão pouco para me apoiar.  Minha vida está assim, crua.
Faço as coisas com minhas próprias mãos. Criar meus filhos, arrumar minha casa, inventar minha carreira. Enfrentar meus temores e tristezas.
Nunca estive tão sozinha no meu caminho.
Porém falo tudo isso sem mágoa ou arrependimento.
Sou mais inteira do que jamais fui. Sei dos meus limites de uma maneira inédita. Do meu cansaço, do perigo de descontrole.
Mas estou aqui. Ainda eu. Ainda de pé.
E estar aqui, respirando este ar e vestindo esta pele. Não há nada igual.
Nunca passei por um momento tão difícil como este. E nunca tive este sentimento tão presente de que tudo há de passar e eu de estar aqui, com meus pés firmes no chão e minha cabeça firme nas nuvens.


"From a certain point onward there is no longer any turning back. That is the point that must be reached."
— Franz Kafka


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5.9.11

Ensinando poesia

Eu acredito que o maior legado que posso deixar para meus filhos são memórias felizes, uma forma eterna de marcar meu amor no coração deles.
Na última quinta-feira, tive a chance de praticar neste sentido. Fui à escola do Léo, dentro de um programa pais e filhos que eu mesma inventei.
A ideia era simples: ensinar às crianças sobre a importância do esforço, conjugados com o uso prático de ler e escrever.Convidei três outros pais para falarem de suas carreiras e como usam as palavras para exercê-las.
Começou com um pai-ator, seguido por um pai-escritor. Sucesso total.
E aí chegou minha vez.  Fui contar que sou escritora.
O desafio de entreter 40 crianças de duas turmas de primeiro ano era grande.
Lucrécio Brasil
Comecei falando quem eu era, sob o olhar fascinado do Léo.Falei que escrevia num blog e mostrei no computador.
Neste momento, cheguei na parte principal da minha visita: contar que eu comecei a escrever com a idade deles e tive dois livros publicados.
Li  um trecho de meu primeiro poema. Depois li alguns mais. E aí comecei a falar sobre poesia.
Fizemos rimas.  Reconhecemos que tem música que lembra poesia.
Li Vinícius de Moraes, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
Lucrécio Brasil
As crianças estavam animadíssimas e queriam muito participar. Aí fui para o gran finale: juntos, escrevemos dois poemas coletivos: "A Casa Monstro" e "O Mar Azul".
A Casa Monstro foi um "poema para assustar", dentro do princípio que podemos fazer poemas a partir de sentimentos.  Primeiro ouvi sugestões de "sujeitos assustantes"(bruxa, abóbora, etc). Depois combinamos com verbos...
Lucrécio Brasil
Quando fomos para o segundo poema, provoquei: "agora vamos brincar de dar cores malucas para os bichos do mar que vocês escolheram". E foi um tal de baleia vermelha e assim por diante.

Lucrécio Brasil
No final, quis passar a mensagem de que a poesia -assim como o desenho, a dança e outras artes- é uma forma de registrar o que nos marcou, extravasar um sentimento, expressar-se no mundo.

Fui buscar o Léo, horas mais tarde. Fui recebida com sorrisos e abraços de muitos de minha "audiência", o maior agradecimento que poderia receber.

Ao final, com a esperança de criar memórias felizes naquelas crianças, inventei uma memória feliz para mim! O coração está quentinho!

2.9.11

Águas calmas

O caminho próprio é íngreme e cheio de eventos inesperados.
Não me queixo das pedras, elas tornam o caminhar saboroso e aventureiro. Mas, às vezes, me enrosco.
papeldeparede.fotosdahora.com.br
Falava ainda esta semana de como é importante estar presente.
Agora sinto como é um antídoto para mentes agitadas.
Hoje acordei com tempo de menos e tarefas demais.  Tentei começar algumas coisas, mas durante as manhãs estou só com as crianças e percebi que a frustração (minha e delas) estava atingindo níveis perigosos.
Aí parei.
Lavei louça.
Esvaziei o varal com ajuda dos filhotes. Pus a roupa para lavar com a ajuda deles também.
Fui ouvir o disquinho da Chapeuzinho Vermelho com Olivia. Levei-a na escola. Almocei com Léo.
Recebi um pessoal novo aqui em casa para umas fotos (fui entrevistada para uma revista!).
Agora, horas depois de minha manhã agitada, um sopro de calma me sustenta.
As tarefas ainda são muitas. Mas eu parei de sofrer (por agora) com elas.
Conciliar vida doméstica e trabalho é uma tarefa gigante.  Vamos com passos pequenos e quem sabe chegaremos mais a frente.