A poesia avessa da vida

Ser mãe é uma aventura por dia.
Aprendemos novos truques a cada momento.  
Sentimos estar perdendo a batalha a cada dois minutos. Uma gangorra de alegria, sustos e culpa.  
Um momento de rir do carinho inesperado da filha. Um momento de consolar o filho.
Ontem foi assim. Tempo de consolar.
Enfrentamos a primeira morte de bichinho de estimação.  Um peixinho dourado, muito animadinho nos primeiros dias.
A inexperiência da família deve ser responsável. Se foi excesso ou falta de comida, falta de oxigenação, não sei. 
Talvez o estranho tom esverdeado do aquário seja um risco ambiental merecedor de investigação.
Não sei.
Só sei que estava só, com duas crianças pequenas, explicando que o "peixinho foi para o céu", caçando um triste corpinho preso no canto do aquário.
O marido, coitado, teve seu happy hour interrompido pela esposa frustrada com a falta de consideração do peixinho. Que hora para morrer! Final do dia, quando estou sem ninguém para me ajudar e todos estão exaustos.
Mas, ao final, o instinto maternal prevaleceu.
Despedidas formais e solenes. Consolar as lágrimas muitas. Acolher a possibilidade de um novo peixe, assim que reequilibramos o ecossistema.
E aguentar, firme, as associações diretas da filhinha com a morte da bisavó, do bisavô que nem conheceu. E o golpe final: "Eu não quero morrer".
Para quem vai ter um bichinho de estimação, vale a reflexão.
Não me arrependo.  Valeu pela chance de discutir morte, vida, céu, esperança, estar junto, ritual.
Passado o drama, os dois dormiram.
E restou eu, só e desperta. Pensando sobre morte, vida, esperança, ritual. 
Sentindo uma saudade danada das minhas avós e do meu avô. 
E enfrentando meu medo silencioso de perder quem eu amo.
Um peixinho morto pode nos ensinar muito.


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