Chuva do rosto

Hoje é daqueles dias.  Final de ano, os quarenta chegando e parece tempo de balanço.
É tempo de balanço.
Hoje é daqueles dias em que mergulho com força na realidade de precisar andar sobre os meus próprios pés.
Há uma solidão inexorável em crescer.  Saímos da dependência para a interdependência, num movimento maravilhoso, empoderador. Mas de uma enorme solidão.

Solidão porque dentro de nosso peito, há dores somente nossas e quem ninguém, mesmo bem-intencionado, pode compreender.
Solidão de sentir que mesmo nossa fé em Deus, nos homens e em nós mesmos não nos impede de sofrer.
Mistura de  lembranças doídas, desafios do tempo-hoje,  um cansaço de lavrar a terra do nosso caminho.

Tenho muitos parceiros de jornada, sim eu os tenho. Mas há dias em que o peso da vida adulta derrama-se por nós inteiros e não há mão que chegue para nos puxar para cima. Não há abraço apertado o suficiente.

Hoje é um destes dias.

Uma certa saudade de minha infância, de não saber certas coisas. De não conhecer certos sofrimentos.
Uma enorme saudade de um tempo onde eu  me perdia no cotidiano e nas fantasias. Sem a dureza do ser adulto. Sem saber.

Hoje, mais um de meus anjos subiu aos céus.
E sei que amanhã, com o coração um pouco mais cicatrizado, poderei honrar sua história e agradecer por tê-la tido comigo. E por seus filhos estarem aqui, fazendo presentes sua carne e seu espírito.
Amanhã, sei que vou chorar menos, vou ser menos cinzenta.
Mas não hoje.
Hoje é tempo de ansiar por ontem.

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