Quando o sangue ferve...

Quando meu sangue ferve, meu amor se encolhe, com  muito medo.
Tenho ímpetos de vomitar palavras-lava, de incinerar o recém-inimigo.
Minha violência mais selvagem parindo palavras ferinas que, com muito custo, calo.
Meus olhos viram flecha. Minhas mão se crispam, como empunhassem espada.
Fico três vezes maior. Dez vezes maior.

Ou  poderia ficar. De uns tempos para cá, algo mudou.
Minha ira já não irrompe do mesmo jeito. O corpo apara o primeiro golpe e fico mastigando o veneno que antes jogava sem muito freio por aí.
É duro, o peito fica ralado.  Mas é mais fácil administrar os danos.
Engulo palavras-cacto, para que o tempo, o sono e o bom-senso os transformem em algo mais útil.
É cinza e fel, como tantas outras coisas do caminho, mas é minha cinza e meu fel.  Preciso lidar com eles, entendê-los, transmutá-los.
Para que meu amor novamente seja maior que o ódio. Para que  minha coragem seja a favor da transformação, não de machucar o outro.
Rumino ressentimentos e raivas buscando transformá-los em ouro.
Aguardo, pacientemente, que o ar velho dos peixes podres seja depurado.
Amanhã é dia de um outro dia, mais calmo.




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