Nadando na sua corrente

Na noite fria de São Paulo, medito, os dedos gelados.
Calar quando todos falam.
Falar quando todos calam.
Encontrar a minha corrente.
No meio do turbilhão, do cardume.
Encontrar.


Aquela voz que é só minha
Aquele pedido que minha alma, meu corpo, toda eu, faço.

Só para mim.
Quem sou eu?
O que de fato preciso?
O que realmente me faz bem?
Os dedos, dormentes, pedem luvas. Recuso a anestesia.
A cabeça ecoa vozes. Não são minhas.
Diligentemente espero.
Qual é a minha voz?
Pergunta cotidiana.
O que me serve desta multidão?
O que faz sentido?
O que é meu sentido.
É tanto ruído que quase esqueço.
Respiro fundo, olho para dentro.
No silêncio solitário de todos nós, encontro a sombra de uma resposta:
Tatear no escuro sem medo.
A corrente é forte, mas se presto bastante atenção, ela está lá.
A minha corrente.
Jato cálido no meio da frieza de andar sem destino.
Avançar em meio a conversas casuais, impensadas.
Quem sou eu? O que posso fazer? O que é meu?
Perguntas que ecoam na noite escura.
São apenas vultos, mas se fixo o olhar, lá está.
Minha bússola interna. Meu chamado único.
Meu melhor eu.

Esperar. Tão difícil no meio da correria.
Escolher.
Ser desigual de todos para ser igual a mim.
O silêncio que não encontro fora, me aguarda dentro de mim.
No ritmo de um tempo antigo, quando eu não sabia dos outros.
Só sabia de mim e de minha curiosidade.
Só conhecia o que alcançavam meus dedos.
Lá está.
Nem tão escondido assim.
O que quero e preciso para mim.
Respiro fundo neste silêncio meu.
A resposta reside no simples, no natural, no chamado latente.
Amanhã despertarei, com ou sem lembrar dos sonhos.
Mas minha carne, meus ossos, minha pele dirão.
Esta é você.
Respeite-se.

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