Um dia após o outro

Esta semana tive um daqueles dias esquisitos, onde tudo parece estar meio fora do lugar.
Correria sem fim de manhã, imprevistos, compromissos desmarcados.  Tudo que estava planejado foi contradito.
Eu andava meio cansada e percebi que era a dica para uma pausa bem-vinda, um sono improvável de meio de tarde.
Obedeci, meio contrariada.
Mas ao fim do dia estava triste, meio murcha.
Para  mim é difícil quando um dia fica assim tão vazio.  Fiquei um pouco aprisionada nesta frustração.
Até o dia seguinte.


Descansada e com uma agenda  frouxa, fiz minha manhã mais a contento. Saí para traballhar na hora, com um par de coisas na lista de tarefas.
Caminhava célere e distraída, até encontrar uma pequena comoção no meio do caminho:
Um senhor, morador de rua, havia caído e batido com a cabeça. O sangue da ferida manchava a calçada. Um grupo de pessoas tentava, em vão, chamar uma ambulância.
Ofereci-me para ir a pé falar com os bombeiros.
Fui.
Chegando lá, eles avisaram que já sabiam do ocorrido, mas não tinham ambulância para buscá-lo.
Voltei correndo, me dando conta que uns primeiros socorros já teriam sido de grande ajuda.
Encontrei o grupo ampliado, com uma moça muito cheirosa e arrumada liderando as conversas com seu Flávio, que agora já tinha nome e impacientava-se para vender sucata, não havia comido nada ainda (e era quase meio-dia). Conseguimos acalmá-lo, mas nada de ambulância.
"Capturamos" a Guarda Municipal que nada podia ou sabia fazer, nem primeiros socorros. Mas deram a valiosa informação: "eles vêm, mas vão demorar. Não deveriam ter dito que ele era morador de rua".
Aprendi. Da próxima vez aviso que um distinto senhor está ferido e virão correndo.
Um pouco triste e sem saber o que fazer, decido que é hora de partir.  Entrego meu  cartão para a moça disposta a ficar e saio, meio culpada, meio pequena. Mas eu precisava ir e não estava ajudando mais.

Meu  dia continuou, incluindo passagem por um cartório. Esperando por sua vez,  uma moça se queixava da vida, da fila, da incompetência dos funcionários. Contei para a ela a história de Seu Flávio e disse que estava feliz de estar ali, no ar condicionado, com as bençãos da saúde, conforto e dinheiro suficientes. No final ela sorria e partiu mais leve para autenticar sua identidade. Agradeci a Seu Flávio.

Dava tempo de almoçar antes do outro compromisso e encaminhei-me a um pequeno restaurante próximo.
Lá encontrei um conhecido e começamos a conversar. Ele me contou de suas questões, eu pude ajudar um pouco. No final, ele perguntou: você está lendo meus pensamentos?  São os peixes, que estavam agitados.
Saí dali feliz por ter iluminado um pouco suas perguntas e agradeci por este trabalho que amo tanto.

Voltei para casa, para buscar a filha e fechar o dia, já tão diferente do outro. No caminho, me liga a boa samaritana que ficou cuidando de Seu Flávio. A ambulância tinha chegado, levado o senhor para o hospital. Ela, gentil, ligara para me avisar. Agradeci  muito por sua bondade comigo e com ele. Fiquei de coração em paz. Agradeci a Deus por lembrar-me que nem sempre EU preciso fazer tudo para as coisas acontecerem. Aliás, quase nunca.

O dia terminou manso, cada coisa em seu lugar e um quentinho no peito.
Pensei na minha cama macia, nos meus confortos e na vida de Seu  Flávio.  Não é preciso muito para a vida ser boa.
Nada como um dia após o outro para tudo voltar ao seu lugar.

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