Construção

Meu marido e eu tomávamos café na deliciosa "Casa da Táta", quando ele me perguntou sobre a marca estampada no guardanapo, uma simpática casinha.
 "De quem será esta casa? Parece de verdade".
Aproveitei minha proverbial extroversão e perguntei para Táta que casa era aquela.
"Ela veio de várias casas, dos meus avós, meus pais".
Enfim, era de fato uma casa de verdade, mistura de moradas ancestrais com a própria imaginação empreendedora de Táta.

Também assim somos nós.



Um tijolo veio daquela avó, outro daquele avô. Uns tantos vieram da mãe, outros do pai.
Irmãos, tios, primos, um vizinho mais marcante.  Uns vieram de colegas de trabalho, de escola, da vida.
Muitos, no meu caso, do marido e dos filhos.
Estes tijolos estão à nossa disposição.
Alguns, mais valiosos, é preciso guardar. Outros, não pertencem a nossa história e não os devemos carregar.

Afinal, o melhor destino para todos nós é construir a própria casa.

Como lidar com tantos tijolos  herdados e aprendidos?
É preciso desenhar uma boa planta e as melhores são aquelas em que somos os reais arquitetos.
E há de faltar tijolos. Estes, nós mesmos os cozinharemos, com a argila da caminhada.
Nossas dores, nossos amores, nossas pedras, nossos tropeços e esperanças.
Amassaremos a lama mais dura e ela se tornará alicerce.

Assim, com suor e amor,  ergueremos a nossa casa. O lar de nossa alma.
É preciso paciência. De tempos em tempos, reformas.
Uma janela emperrada.  Uma porta que precisamos fechar, para tantas outras abrirmos.

Construir-se requer engenhosidade, afeto e muita paciência.
Varrer as teias de aranha. Espantar a poeira dos cantos. Arejar, quarar as cortinas, cuidar.

Construir-se é para a vida inteira. Nunca fácil, nunca em vão.
É preciso prosseguir, parede a parede, sem esmorecer.
Sigamos todos neste sagrado fazer, honrando os que nos precederam, sem nunca, nunca esquecermos quem somos...
Somos a possibilidade de uma casa onde nosso coração possa habitar.

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