A borda da vida

Morreu o pé de manjericão.
Após anos de luta silenciosa, desistiu.
Mataram-no o calor escorchante, o desatento regar, a terra cansada, o tempo certo de existir de um manjericão.

Tudo isso e, ainda assim, doeu-me.
Mirar assim a borda das coisas.
Há limite para o corpo e para vida, preciso aprender a acreditar.
Senti-me atônita pela minha ingenuidade. Apesar de meus mortos e minhas pedras, eu ainda insisto em fingir que não.
Desistindo finalmente do manjericão, olhei de olhos bem abertos para mim.
Meu corpo, minha alma, toda eu, são como um manjericão em cultivo.
Às vezes, murcho. Haja água, autoamor e coragem para recomeçar.
Outras, acusando o golpe do moto contínuo de ser mãe, esposa, empreendedora e tão resistente ao descansar.
A tristeza dentro de mim é também pelo manjericão, símbolo de meu otimismo incansável  e fantasias de infinitude. Mas sobretudo por mim mesma, cada vez mais sabedora de que a estrada de conhecer-me e melhorar-me não tem fim, mas certamente tem um preço.
Despeço-me do meu manjericão ressequido, com uma vaga gratidão.  Quantas vezes temos a chance de segurar um  lampejo de nosso futur oem nossas mãos?
Um dia também eu serei um manjericão seco.
Portanto que eu viva muito, navegue aventuras, ame com entusiasmo, voe sonhos de bom tamanho.
Pois o dia em que meu corpo se exaurir e a seiva de minha vida se esgotar, haverá de valer a pena cada dia de sol, cada lágrima, todo suor.

Sonho em transformar-me numa doce e útil lembrança, como meu manjericão resiliente

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