Como tapioca

“Não é possível estocar tempo bom” reza o ditado popular.
É verdade.
Certas coisas tem um momento único e este momento é agora.
Por exemplo, tapioca.
Todas as sextas, meu marido tem o mesmo ritual: café da manhã na feira.
O cardápio não varia: tapioca quentinha com coco.
De vez em quando, vamos em família. Um programa delicioso.
Um dia, decidimos comer a tapioca em casa. Na enrolação para sentarmos todos à mesa,  passou o tempo.
A tapioca perdeu seu frescor, seu calor reconfortante,  a fluidez que derrete na boca.
Foi bom, mas nem tanto.
Imagem Lucrécio Brasil
Quantos momentos de nossa vida ficam assim,  meio borrachudos quando requentados?
Pior,  quantas vezes não temos nem a oportunidade de degustar depois? O filho que cresceu depressa demais, o amigo com quem perdemos contato, o amor que não cultivamos.
Se deixarmos, a correnteza das horas carregará estes preciosos recortes de vida para longe, para sempre.

Deixei demasiados momentos como este passarem. Por isso, agora procuro andar pela vida mais atenta a tapiocas fresquinhas.
Nem sempre é possível, claro.  Mas já fiz um bom progresso.
Na maternidade, na amizade e no amor, vejo o quanto “espere um pouquinho”; “agora não”; “outro dia...” esfriam a tapioca da vida, deixando-a sem graça e sem sabor.
Ainda fracasso miseravelmente, volta e meia. 
Mas menos.
Aprendi que nem todo dia tem feira, é preciso aproveitar.
Desejo então para nós um viver assim estalando de prazer. O prazer quentinho, gostoso e efêmero do agora.

Como tapioca.

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