Um conto do mar

Numa noite sem estrelas, um jovem casal pediu ao oceano:
- Queríamos muito uma filha para nos alegrar.
O mar comoveu-se e,  no dia seguinte, uma flor chegou às margens da água. Dentro de si trazia uma menina com olhos muito grandes e uma alma cheia de peixes.
O homem e sua esposa ficaram muito felizes e decidiram chamar-lhe Alegria.

Alegria era uma criança diferente, conversava com as ondas e vivia no mundo dos sonhos.  Mas gostava do mundo terreno e com tudo se encantava.
Curiosa, via  em tudo uma novidade. E a cada maravilha, inventava uma história.
Suas palavras alegravam a todos e assim se passavam os dias.
Por ter nascido de uma flor do oceano, Alegria não entendia muito bem sobre a vida e a morte dos homens.  Mas olhava tudo com seus olhos grandes e seguia criando histórias.
Alegria tinha uma avó muito sábia, que conhecia bem as dores do mundo. Pressentindo  que a alma de Alegria era mais flor do que espinho, decidiu  lhe dar um presente.
Chamou a neta um dia e lhe disse: Alegria, tome aqui esta caixinha mágica. Ela guarda o seu tesouro.  Sempre que estiver perdida, abra-o e espie dentro, isso vai te ajudar a seguir o caminho.
Alegria não sabia, mas o amor de seus pais estava doente e logo iria morrer.  Ela abriu o tesouro pela primeira vez e viu que ele estava cheio água do mar.  Escreveu muitas histórias de sonho e tristeza e viu, surpresa, que elas viravam peixe e nadavam dentro da caixa.
Assim por muitos anos Alegria criou novos peixes e seguia no seu caminho.  
Em suas andanças, conheceu seu verdadeiro amor, um homem com  coração bom, sabedor de muitas canções. Alegria era muito feliz.
Um dia, entendeu que precisava trabalhar, pois sabia que no mundo dos homens todo mundo trabalha.
Encontrou um lugar onde sabia que havia muito fogo, algo que a intrigava.  Mas o começo foi difícil, ela não sabia controlar as chamas e causou vários incêndios.
Fez uma grande viagem para um lugar muito frio e lá aprendeu a lidar com o fogo. Tudo parecia bem. Mas ela ficou inquieta por novidades e decidiu partir.
Encontrou outro lugar, onde se cultivavam flores de muitos tipos.  Pensou: Pode ser uma boa ideia.
Só que teimava em cuidar das flores com o fogo e elas murchavam. Os outros jardineiros estranhavam seu jeito, mas nada diziam. Zangada, culpou todos e sentia-se muito infeliz.  Havia mesmo esquecido do seu lado flor.
Finalmente, Alegria teve um filho e abrandou seu coração. Pela primeira vez, redescobriu a delicadeza e, aos poucos, entendeu-se com os outros jardineiros.
Aprendeu a cultivar lindas rosas vermelhas, com o pouquinho de fogo necessário e muito cuidado e amor.
Um dia, encontrou um bebê dentro uma das rosas. Era uma menina de terra, com olhos de fogo. Agora tinha dois filhos.
Mas sua menina-flor acendeu uma saudade grande do oceano.  E esta saudade ficou tão grande que Alegria chorava e chorava. As lágrimas salgadas lhe recordaram dos tempos em que conversava com as ondas. Sentiu que tinha que partir.  Tinha as mãos chamuscadas do fogo e os joelhos feridos com espinhos das rosas, mas seu coração-oceano pulsava bem alto e ela se encheu de coragem.
Caminhou com seu amor e seus filhos de volta para perto do mar. E lá, arrumando suas coisas, encontrou a caixa de sua avó.  Abriu sua caixa e sentiu uma vontade grande de contar novas histórias.
Voltou a percorrer o mundo com seus olhos grandes e viu novas maravilhas do céu, do mar e da terra. Conheceu muitos sábios, percorreu montanhas e pela primeira vez, olhou também para dentro e descobriu que era fogo, oceano e flor.
Suas histórias-peixe jorravam em profusão.  Muitas pessoas passaram a procurá-la para ouvi-las e assim alegrar seus corações cansados.
Então, aconteceu um milagre. Alegria percebeu que seus peixes conversavam com os peixes dos outros. E que suas palavras ajudavam os outros a encontrar seus próprios tesouros.

E assim, começou um novo caminho, agora bem seu, de acordar com palavras os tesouros adormecidos dentro do coração dos homens.

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