A limonada da vida

Sou famosa por perder voos nas condições mais prosaicas.
Cada equívoco, dinheiro e tempo se perdem. Mas sempre aprendo um pouco.
Já cheguei um dia depois do voo para Londres.  Já cheguei variadamente atrasada sem saber que o estava.
Com isso, aprendi a revisar horários e dias com mais afinco. Pelo visto, ainda não o suficiente.
A última vez que perdi um voo foi com requinte.  Cheguei mais cedo, antecipei o voo em 90 minutos.  Olhei distraída o novo horário e... Perdi o voo.
No início, fiquei aborrecida. Depois não.
Explico o porquê.

Quando descobri o meu erro (e prejuízo), sabia que a responsabilidade era minha e só minha. Não tentei culpar mais nada. O atendente que não circulou o horário da partida. A funcionária que me fez transitar entre filas, perdendo tempo. Eles foram atrapalhados, mas tudo começou comigo.
Pensei em como usei os 30 minutos extras que me causaram o atraso.  E os usei fazendo gentilezas com os outros e comigo.  Lembro-me do meu bom humor fazendo check in, da paciência com um vendedor com medo da supervisora não vê-lo contando todo seu aborrecido script... Da generosidade com uma pessoa bem pobre que vasculhava lixeiras.
Calculei o tamanho do meu prejuízo.  Foi um extra desnecessário, mas um custo aceitável para mais um aprendizado. E o tempo extra não comprometeria minha agenda.
Meditei, finalmente, sobre outros eventos mais relevantes, como a perda recente de uma pessoa querida. Pensei com suavidade e amor na sua família.  Definitivamente, perder meu voo não mereceria um gasto de energia criando casos na empresa aérea, ou sendo mesquinha com os profissionais envolvidos na minha trapalhada.
Nunca é fácil escorregar numa antiga casca de banana. Mas com gratidão, percebi o quanto sou diferente da primeira vez em que enfrentei um “no show” na minha vida.
O discreto mau humor vai passar, consegui reclamar só um pouquinho com os colegas de fila. Senti-me vitoriosa.
Também me senti humilde. Minhas gentilezas anteriores não foram premiadas imediatamente.  Meu engano recordou-me que nem sempre coisas boas acontecem com o que faz o bem.   Não deve ser a esperança de recompensa a mover meus bons atos. Não, é preciso ancorá-los em algo mais profundo e resiliente.

Já com um discreto sorriso nos lábios, quase agradeço o meu infortúnio.  O tanto que me ensinou é uma dádiva.

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