Pescaria

“O negócio é sair para pescar quando a maré não está para peixe” Raul Seixas

Yeohghstudio
Seguir em frente é desafio.
Tantas forças e fatos nos fazem duvidar, é difícil reunir forças para navegar a corrente.
Lá fora, tempestades rugem, ventos fustigam o caminho. Lá fora é inverno e incêndio.
Mas não desanimo. Estranhamente, teimosamente, olho para a rede e os remos com sóbrio entusiasmo.
Sóbrio porque  não é tempo de muitos.
Porém, mais que tudo entusiasmo. Nunca brilhou tão forte minha centelha. Nunca estive tão certa de estar no meu caminho.
Alguns momentos de fraqueza me assombram. Temores, cansaços.  Não desisto.
Prossigo com  minha fé e as sombras recuam, contrariadas.
Atenta, não me distraio remoendo escassez.
Por isso posso ver as mudas nascendo, às vezes, tão miúdas  e frágeis.
Assim,  posso sorver  avidamente todos os cumprimentos ao meu trabalho.  Captar, com gratidão, os mais tênues sinais de fumaça enviados por Deus.
A beleza de reinventar-se aos quarenta anos é que já sei mais de mim, não me assusto com qualquer monstro embaixo da cama.
Já velejei navios. Custaram-me  sangue e suor.
Já desisti de ilusões para nutrir sonhos.
Já vi um pouco de muito e, afortunadamente, não vi demasiada tragédia ou absurdos.
A vida - mesmo na dureza de suas pedras e na altitude de suas montanhas-  tem sido generosa.
Empurro meu barco para o mar. Não estou só, nem com medo.  Pressinto peixes, de variados tamanhos.
Uso todas as ferramentas que ganhei ou construí.  O passo é firme, não me mareio com o balanço do mar.
Sigo em frente.
A pescaria dos corajosos tem sempre sabor. Lanço minha jangada com meus companheiros.  Ainda que a rede não transborde de peixes, terá valido a aventura e as histórias para contar.

Benefícios de renascer num tempo mais maduro.

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