Mal necessário

Uma amiga perde o pai. E assim aprende sobre morte, enterro, herança, inventário.
Eu preciso sair, com pressa, de meu escritório. E assim, aprendo sobre corretores, registros, ônus reais, comissões e impostos.
Uma cliente decide ser terapeuta. E assim, precisa aprender a cobrar por um trabalho que preferia fazer de graça, mas não pode.
autumnskymning@tumblr.com

Situações difíceis, algumas inesperadas.
Com maior ou menor gravidade, a vida está sempre nos apresentando situações-surpresa.

Morte, traição, perda de saúde (nossa ou alheia). Ou (um pouco) menos dolorosas, mas incrivelmente desgastantes: questões com nossos filhos, brigas familiares, precisar ganhar mais dinheiro. 
Até  mesmo obstáculos rotineiros: um cartão cancelado, perder o celular, o wifi que não funciona durante uma viagem ao exterior.
Tudo serve para nos ensinar.

Não sou daquelas que pensa que só do difícil advém aprendizado.
Mas estou certa de que o que não me mata, me fortalece, como diria Nietszche.

Seria bom uma vida cor-de-rosa, onde aprendêssemos com paz e tranquilidade.
Mas não. 
Vivemos entre tropeços, soluços e assombrações.

Sim, é verdade que também aprendo  muito com o amor, a amizade, a compaixão, a generosidade.
São vivências mais prazerosas, que degusto deliciada.

Mas é preciso atravessar as montanhas do dia a dia, com suas leis e acordos áridos.

Na busca por uma nova sala para abrigar meu trabalho, recebi a ajuda de meu pai. Pude admirar a coleção de saberes que uma jornada turbulenta confere a um homem.

Meu pai, patriarca de sua família de origem, entende da lida do mundo muito bem.  As contas, as perdas, as responsabilidades, os preços, as burocracias.
Senti-me amparada em ser aprendiz de um homem vivido, que enterrou seus pais, ajuda os tios idosos, se separou, teve quatro filhos, comprou e vendeu coisas.

Num tempo de navegar por documentos e escritórios, acolho com gratidão a ajuda bem-vinda.

Para abrir a picada deste caminho tão meu, é preciso avançar pelas tramas da vida. Por vezes, aborrecidas e tortuosas.

Com o peito cheio de esperança e as pernas determinadas, subo estes degraus. Estou chegando onde quero.


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