Amor bem plantado

24 de fevereiro. Meus avós Celso e Gisela fariam 105 e 89 anos.
Eles são para mim um exemplo de amor de verdade.


De verdade, pois não foi casamento de faz-de-conta: houve doença. preocupação com dinheiro, dificuldades várias.
A casa antiga ainda existe, mas eles já moram no andar de cima há algum tempo.
Pisando no chão de tábua corrida, lembro do ranger dos pés de minha avó, preparando o café da manhã.
Recordo do tempo que meu avô já era um velhinho de cadeira de rodas e bem surdo, zelado por ela.
Amor que durou 48 anos e só se interrompeu quando ele virou estrela.
Lembro-me do meu avô declarando "Eu amo esta mulher!" e ele já tinha mais de oitenta anos.
Minha avó, ruborizada, tentou desconversar:
"Você então deseje a sua neta um noivo que a ame tanto quanto você me ama".
Ele, rápido e sorridente respondeu:
"Impossível. Não existe amor como o meu por você".

Não existe mesmo, pois não há no mundo dois amores iguais.
Mas o desafio da vida a dois pode bem ser o mesmo:
Escalar as pedras, curar as feridas, conversar sobre o que incomoda. Calar sobre o que não faz diferença dizer.
Preservar o namoro e também a amizade. Dar espaço para o outro crescer.
Respeitar a diferença, perdoar as fraquezas. E sobretudo, ser grato.
Gratidão de ter alguém ao lado para saber de nossas sombras e ainda assim escolher ficar junto.

Algumas pessoas me dizem "amar deve ser algo natural". Eu, neta de fazendeiro, discordo.
Amar é algo cultivado.
Escolher bem a semente, depois regar. Depois podar.  E se a planta ficar seca ou doente, cuidar muito para a fase ruim passar.

Este ano, meu jardim de vida em comum faz vinte anos. Houve geada e seca, mas sobreviveu.
Olhando para o céu, sinto meus avós sorrirem.
Eles também sabem: não existe amor igual ao meu por Lucrécio.  E volta e meia mandam uma chuvinha, para ajudar na estiagem.