Cabides Vazios

2015 começou lentamente aqui  nestas praias. A vida corria com força lá fora.
Um dos grandes movimentos foi uma reforma geral na minha casa.
Há anos eu me queixava de cacos e tralhas infiltradas em todos os cômodos. Era uma maçaneta capenga ali, o box meio mofado.
Por onde eu andava, havia um ar parado, de coisas quebradas ou sem uso.
Parece bobagem, mas estes cacarecos vão drenando nossa energia e bom humor.

Decidimos dar um basta.  Ainda no final do ano passado, começamos uma obra.  Nada de quebra-quebra, mas uma arrumada geral.
Contratamos um arquiteto amigo e excelente profissional. Programamos férias de três semanas, para aquele gás no sinteco e pintura.

E partimos.

Voltamos para a casa-caos, tudo fora do lugar. E aí foi arrumar gavetas e armários, tudo encontrando seu novo espaço.

Também - por que não?- foi tempo de se livrar de excessos. Doamos roupas, objetos, móveis.
Tudo que era quebrado ou sem uso, teve um destino.
Passado o vendaval da arrumação, ficaram os cabides.


Inúmeros cabides vazios, de muitas cores e tamanhos.
Antes de também incluí-los no rol das doações, refleti sobre como nossos dentros são cheios destes cabides.

Uma amizade que já acabou, mas insistimos em arrastar.
Um amor morto, que não enterramos.
Crenças inúteis que deixamos no armário do pensamento.
Ressentimentos, tristezas, vinganças, implicâncias.

A casa já está praticamente pronta, faltam detalhes.
É tempo de olhar para dentro e de lá desenterrar esqueletos e outras quinquilharias.
Com delicadeza e disciplina, separo os cabides vazios.
Ë um novo ano. Tempo de renovar.