Vencer o medo

Acordei hoje sobressaltada, estômago latejando.
Aos poucos percebi. A sirene distante, as notícias recentes. Acordei doendo de medo.
Meu filho faz dez anos hoje e não temos porteiro 24h.
A fragilidade da vida, a importância da vida fizeram meu corpo sentir esta dor.


Não posso esquecer ou impedir meu medo.
Ele brota espontâneo e bem aceso, do meu dentro mais dentro.
Ainda assim, não quero me entregar.
Se eu sucumbir, paraliso.

Sim, queridos, é preciso ser realista, cuidar da segurança, ser prudente.
Mas sobretudo é preciso cultivar nossa coragem.
É preciso viver, é preciso andar nas ruas, é preciso trabalhar, estudar, seguir.

Embora atentos e cuidadosos, vamos cultivar pacientemente limites para nosso medo.
Vamos escolher os horários e os caminhos, mas não desistamos de caminhar.
Ousemos um pouco de otimismo, pois já houve momentos assim antes.

E pensemos nas periferias, onde a violência não é novidade. E ainda assim, de onde milhares saem de suas casas para prosseguir com a vida.

Não estou conclamando ninguém a ser ingênuo.
Cobremos as autoridades, manifestemo-nos.

Mas cuidado, muito cuidado.
Que nosso medo não vire pânico.
E nossso pãnico, intolerância, racismo e outros males.
Nascidos do medo, por vezes piores que o medo.

Sim, meu estômago dói.
Mas escolho vencer o medo.
Vencer o medo não é eliminá-lo, isso seria impossível.
Vencer o medo, é atravessá-lo, iluminando minha coragem de dar mais um passo a frente.
E ter cautela com os passos para trás.