Coração interurbano

Há cinco anos, eu deixava São Paulo para começar o Viver Mais Simples.
Quentinha em minha roupa de inverno, degusto os 14 graus desta cidade onde fui tão feliz.
Se eu tivesse ficado, tanta coisa seria diferente.
Meus filhos teriam sotaque paulista (talvez com leve influência carioca).
Eu vestiria outros trajes, mais formais. Minhas havaianas seriam bem menos exigidas.
Eu conviveria menos com meus pais e meus irmãos caçulas. Mais com meu irmão do meio.
Eu comeria em restaurantes diferentes. Meu espaço de trabalho seria possivelmente um coworking, não meu escritório na Cinelândia.
Não teria feito tantos amigos que prezo. Teria feito outros tantos que desconheço.
Morreria de saudades da amiga-irmã Érica. Sentiria bem menos saudades dos  amigos-irmãos daqui.
Seria mais difícil cortar o cabelo com a Teresa, fazer as unhas de tempos em tempos com Mariah.
Faria outro  Pilates, outras terapias.
Compraria pão quentinho em outra padaria, atravessaria outras ruas.


Penso em tantas coisas cotidianas, pequeninas e grandes, que seriam outras.
E tantas que viveriam na Ponte Aérea onde eu, malabarista, equilibro meus afetos.
Fico assim com saudades daqui, que é longe. Como ficaria com saudades daí, se não fosse perto.
Fico desperta de gratidão por cada encontro, cada esquina familiar, cada pedaço desta vida que eu tenho e, às vezes, nem percebo.
Ainda assim, pulsa uma vontade de novos, um sonho guardado de trocar de CEP.
Há cinco anos, tracei um novo caminho de casa para o trabalho, um círculo de convívio, uma nova geografia.
Aqui, sob a luz fria de Congonhas, deparo-me com o quentinho no coração de pertencer a duas cidades. E o impoderável de tantas outras que possam vir.
Viajante nesta  aventura da vida, levanto-me. O café com o amigo me espera, a visita, desta vez,  é breve.

Meu peito bate,  interurbano.