Um tempo em branco

Os últimos tempos foram de ausência de mim.
Atarefada em preparar uma festa surpresa para um de meus irmãos. Envolvida em entregas de trabalho para sair de férias.
Nos últimos meses, não tive finais de semana, papo furado com amigos, respiro nem calma. Uma máquina de finalizações.
Cheguei ao final da maratona exausta e preocupada com os rumos do Viver Mais Simples.
Será que eu saí do caminho? Será que esqueci o que me trouxe para esta busca de um viver mais sustentável.

Não.
Agora,  na tranquilidade de um voo de cinco horas, concluo que não.
Há cinco anos, estava sendo arrastada por um turbilhão. Fiz um enorme esforço para emergir.  Um movimento dramático de encerrar todo um capítulo de vida e carreira para iniciar uma jornada, na época ainda incerta. Isso foi em 2009.
2010 transcorreu no modo paraíso. Desfrutando da vida sem muito rumo, sem trabalho fixo, pura possibilidade. Emagreci vinte quilos e fundei as bases da filosofia do Viver Mais Simples.
2011 já foi diferente.  Ano de turbulências na vida pessoal. Medo do dinheiro acabar. Crise.
De lá para cá, o terreno está mais firme, mas eu ainda navegava com uma pressão desmedida sobre os ombros : precisava  "dar certo". Retomei os vinte quilos que havia deixado para trás.
2012, 2013, 2014. Anos de reconstrução e construção. Experimentos, criar negócios, firmar-me com organizadora de ideias, formar-me coach.
Estrada percorrida com afinco e afeto.
 E agora, olho para trás e percebo que consegui.
Conquistei uma nova profissão, cofundei dois negócios (Odisseia e Argo). 
Os tempos inocentes do começo já foram. Mas também os intempestivos, de andar sem saber onde bem chegaria.
Sim, o Viver Mais Simples foi resignificado. Provou-se mais complicado do que eu idealizava, todavia mais real.
Hoje, literalmente nas nuvens, percebo a força transformadora do agora que construí.
Uma maior consciência sobre meus talentos e sobre meus limites. Uma gratidão por ter descoberto meu potencial de apoiar as pessoas, enquanto elas descobrem seus próprios caminhos.
A delícia de criar textos, marcas, escrever um livro.
A maior presença em ser mãe de meus filhos, esposa de meu marido. Mesmo com lapsos aqui e ali.
Foi preciso tirar o fardo dos ombros para desfrutar.  Foi necessário um tempo em branco para perceber quantas linhas já tracei.
Começo, lentamente, a ser mais íntima desta nova Leticia, que avança  e realiza, sem dúvida. Mas que pode se nutrir da pausa, do agradecer pedras e presentes encontrados na estrada.
Hoje, sinto começar a jornada por dominar um novo mundo: aquele da satisfação mais plena com menos esforço, do prosseguir num pulso mais lento.
Da vida mais simples de verdade, com as alegrias e dores mais brandas.
Uma semente da serenidade que almejo. Um Viver Mais Simples de dentro para fora.

Finalmente.