Entre dois amores

 Em gratidão, Luto, memórias felizes

A amiga sábia me lembra: este dia de hoje, entre dois amores.
Coincidência ou não, dia em que amanheço banhada de emoção por terminar o livro de Gilberto Dimenstein narrando seu percurso de câncer e morte. E portanto vida.

Percurso que tracei junto a meu pai, Alberto, aniversariante do dia 28. E meu irmão Caio, cujo primeiro aniversário de morte será amanhã, 30 de janeiro.

Na maioria dos dias, estas duas saudades me acompanham silenciosas, velando carinhosamente o meu avanço diário sobre as tarefas e desafios.

Mas neste último mês, percebo-me envolta numa nuvem de tristeza, que me faz andar vagarosa e que me urge recolhimento e autocompaixão.

Sigo lidando com a vida como ela é, tomando providências, firme e prática como boa capricorniana. Mas o preço aparece logo: não tenho a mesma energia incansável, a vitalidade surpreendente. Para cada dia ou semana de trabalho, um longo período de recolhimento e pausa.

Sigo ambiciosa. Conciliando duas Formações intensas, uma em Dinâmica de Grupos e outra em, vejam só, Tanatologia e Cuidados Paliativos.

Parece loucura, mas navegar neste ambiente onde a vida (e a morte) são vistas sem pudores e com profundidade é curativo para mim.

Sinto-me impaciente com quase todas as coisas e pessoas. Contenho-me usando o treino de polidez que recebi ao longo dos anos. Mas não estranhem se estou mais calada ou distante.
A carne anda viva e qualquer toque, por mais sutil, ressoa como ferida.

Surpreendo-me com a força e fragilidade que emergem da mesma fonte.

Por um lado, sinto-me mais pronta, menos ingênua. Do outro, sinto a energia escoar entre as pernas, sinto o coração machucado atemorizar-se diante das novas dores.

Não tenho nem palavras para descrever o vazio deixado pela partida de meu pai e meu irmão. É como se o mundo tivesse menos pessoas que me conheçam e me perdoem por tudo o que sabem da minha imperfeição.

A saudade se mistura como uma solidão imensa. São muitos os confortos que mitigam estes sentimentos: a espiritualidade, os abraços, os estudos, as amizades e amores vivos.

Ainda assim. Hoje todos os ossos e nervos doem. Latejam as conversas perdidas, os sorrisos, os olhares.

Hoje tudo o que eu sei sucumbe a tudo o que eu sinto. Nada a fazer. Respeitar as lágrimas, abraçar-me.
Saber que amanhã é outro dia e depois mais outro.

Alguns, serão bons. Outros, não.

Escrevo para mim mesma, para que, ao ouvir-me, saiba que estou acompanhada por mim. E que me compreendo e aceito minha inconformidade com a Morte, em perfeita convivência com a inexorável certeza de que a Morte é inexorável.

Sou mãe de mim mesma. Irmã de mim mesma. E assim, aconchegada, ecoam dentro do meu corpo tudo que é meu pai e meu irmão.

Estamos separados por um véu. Hoje mais espesso. Amanhã, não sabemos.

Hoje é um dia entre amores.
Viver este dia de olhos abertos, meu presente para nós três.

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