Prateando

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Quando me casei, há mais de vinte anos, estava determinada a não ter nenhum item de prata.

Eu desprezava o trabalho que arear as peças me daria e fui uma orgulhosa dona de casa com armários repletos de inox, madeira e louça.

Ano passado, meu pai morreu. E das muitas heranças afetivas, ficaram os três únicos itens que minha madrasta concedeu levar da casa antiga dele para o lar do novo casal:

Uma bandeja de prata, um conjunto de xícaras de louça e um aparelho de jantar.

Um dos legados de meu pai é o cultivo a relações harmoniosas na família. Por isto, não se espante em saber que minha mãe e madrasta comemoraram juntas, pela segunda, vez o dia das mães.  Num momento a sós, minha madrasta se lembrou dos três itens e disse para minha mãe que ela os deveria levar consigo, eram seus por direito.

Minha mãe  retrucou: “três presentes, três filhos. Vamos sortear?”

E assim recebi, um pouco contrariada, a bandeja de prata ofertada por Dedê, um dos padrinhos do casamento de meus pais.

A peça é linda, porém volumosa.  Logo encontrou moradia numa estante na sala, de onde me observava diariamente.

Estava encardida e oxidada, após tantos anos sem uso.

E aí começou a magia.

Primeiro fui consultar o Google (“como arear  prata?”), já que meu exemplar de Sebastiana Quebra-Galho foi doado há muito tempo…

Eu sabia que o ideal era um determinado produto tradicional, que eu temia estar fora do mercado (hoje sei que foi comprado por uma multinacional e tenho uma lata de letras miúdas na despensa…).

Mas até encontrá-lo, experimentei com fórmulas caseiras, até chegar na pasta de dente.  Funcionou. A bandeja transformada e eu, junto.

Pois não é que este ritual me aproximou de meu pai?

Primeiro, um sentimento de estar honrando um dos poucos itens de valor afetivo para ele, que não era nada acumulador (exceto livros…).  Arear a bandeja tornou-se um carinho.

Depois, a reflexão sobre a ciência por trás da oxidação da prata. Tudo que é ciência natural me aproxima do meu pai, um inventor apaixonado que ficava irritado quando eu afirmava que algo não era natural:  “o homem é parte da Natureza, portanto suas obras são também naturais”.

Hoje foi novamente dia de arear a bandeja.  Agora equipada com o tal produto mais efetivo, pude me demorar no acabamento.  O brilho da prata recordando o brilho dos olhos do meu pai, de seu sorriso um pouco raro, mas sempre especial.

Espero um amigo, a bandeja ocupada por xícaras, copo, água e café. E me lembro que aprendi a fazer café para meu pai. E me lembro do “super-copão” de água com gelo que era minha especialidade e ele adorava.

As lágrimas, também prateadas, escorrem livremente. Pratear. Prantear. Tudo junto e misturado.

A bandeja tornou-se um tesouro (eu que também não sou acumuladora. Nem de livros).

Arear a prata tornou-se um ritual de saudade.

Luto é uma travessia sem ponto de chegada. Aconchego-me nestas pequenas experiências e meu pai fica aqui dentro, bem quentinho.

Todo prata prateado.

 

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Showing 2 comments
  • Luana Carneiro
    Responder

    Lindo texto, Letícia!
    Me emocionei ao ler.
    Beijo grande.

    • Leticia Carneiro
      Responder

      Que bom, Luana. A emoção da gente cura um bocado de coisas.

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