Um futuro sobre cinzas

 Em coragem, memórias felizes, Uncategorized

Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir o seu próprio futuro”. 
Texto escrito no chão do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista.

Ontem meu coração se incendiou.

No início, uma tristeza e uma dor física.  Melancolia, sentir-me inerte. Como se estivesse sufocando na fumaça incessante que transbordava da tela da tv.

Aos poucos, lendo textos de amigos, vendo as notícias e as reações, meus sentimentos clarearam. E quero honrar este processo com este texto, ilustrado pela inocência de minha priminha Gabi ao visitar a Aranha do Mar. Aranhad do Mar que veio lá do Japão e agora mora no céu dos objetos perdidos pelo descaso humano.

São diversas camadas de dor e as compartilho na esperança de enlaçarmos nossas mãos enquanto digerimos como construir um futuro para esta cidade e este país abandonados.

A primeira dor foi da perda afetiva.

Muitos descreveram a sua reação ao incêndio assim: “foi como perder alguém da família”. Claro. O Museu Nacional guardava muito mais do que os preciosos 20 milhões de tesouros incinerados.  Ele guardava um espaço afetivo na nossa memória de criança. E nas nossas histórias como mães e pais.  Foi perder uma parte nossa, sem possibilidade de retorno. Um fim. A morte de alguém da família.

A segunda dor foi do sentimento de impotência.

“A gente se acostuma à violência, e aceitando a violência, que haja número para os mortos. E, aceitando os números, aceita não haver a paz.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza para preservar a pele.
A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto se acostumar, se perde por si mesma.
A gente se acostuma, eu sei, mas não devia.” 
Marina Colassanti

A cada dia que caminho sobressaltada. A cada dia que finjo ignorar famílias e mais famílias de moradores de rua. A cada dia que vejo um estabelecimento de portas fechadas. A cada dia que testemunho lados que deveriam estar juntos esbravejando sectarismos.  A cada notícia de desfalque, salário abusivo de parlamentares, escárnio com nosso povo e nosso futuro.

A cada dia, me enterrava num sentimento de impotência e anestesia. “A gente se acostuma”.   Não quero e não posso mais viver assim.

A terceira dor foi de solidariedade. 

Tantas histórias dos pesquisadores e pesquisadoras, aos prantos, enterrando décadas de pesquisa.  Amigas que trabalham com Ciência, Arte e na Universidade Pública desabafando sua exaustão em lutar contra um fogo que se alastra veloz: o fogo da ignorância e do descuido com a Educação e o Conhecimento. Cientistas desconsolados, recordando que acenderam a chama do seu desejo de servir à Ciência bem ali,  entre esqueletos de dinossauro, borboletas e múmias.

Ouvir estas vozes e presenciar estas lágrimas doeu muito. O outro sofre tanbém. O outro luta, tantas vezes sozinho.

Percebi que a cada dia, eu vinha morrendo um pouco. Mas persistia em sobreviver, buscando luz nos meus planos, sem muita fé nos governos, nas mudanças de fora. Mas, de certa forma, anestesiada e relativamente míope. O fogo do Museu Nacional me reanimou.

Precisamos honrar tudo o  que perdemos:

“Queimamos o quinto maior acervo do mundo.
Queimamos o fóssil de 12 mil anos de Luzia, descoberta que refez todas as pesquisas sobre ocupação das Américas.
Queimamos murais de Pompeia.
Queimamos o sarcófago de Sha Amum Em Su, um dos únicos no mundo que nunca foram abertos.
Queimamos o acervo de botânica Bertha Lutz.
Queimamos o maior dinossauro brasileiro já montado com peças quase todas originais.
Queimamos o Angaturama Limai, maior carnívoro brasileiro.
Queimamos alguns fósseis de plantas já extintas.
Queimamos o maior acervo de meteoritos da América Latina.
Queimamos o trono do rei Adandozan, do reino africano de Daomé, datado do século XVIII.
Queimamos o prédio onde foi assinada a independência do Brasil.
Queimamos duas bibliotecas.

Queimamos a carreira de 90 pesquisadores e outros técnicos.

O que arde no Museu é uma parte da história antropológica da humanidade. Da história científica da humanidade.

Se eles pudessem, nos queimavam junto com as paredes do museu, com o prédio em si, com as salas de onde D. Pedro II reinou, com os corredores por onde transitaram os feitores da primeira constituição da república,
se eles pudessem, eles nos queimavam.

É imensurável o que perdemos. Rui Da Cruz Jr. ”

Destas três dores, pretendo erguer meu convite à resistência. Por que basta. Nós somos muitos. Nós somos mais. Nós queremos um futuro com Educação, Arte, Ciência, Cultura, Progresso, Justiça e Prosperidade.

Cada um pode fazer sua parte para que estas cinzas não virem simplesmente pó. Que estas cinzas sejam semente para uma transformação real. Um marco para mudarmos a história desta cidade e deste país que amamos.

Como podemos ajudar?

Ajudando a preservar a memória do Museu: os alunos de museologia da UNIRIO iniciaram um movimento para resgatar imagens do Museu Nacional. Envie suas fotos para: thg.museo@gmail.com

Contribuindo  e se engajando com  a Associação de Amigos do Museu Nacional , entidade da sociedade civil que desde 1937 tenta cumprir o vácuo do Governo, como ocorre em tantos outros museus.

Evitando disseminar Fake News e reproduzindo mensagens de ódio, mesmo com a intenção de discordar. Vamos manter nossas mentes e corações elevados e conscientes. Vamos vibrar positivo por nossa cidade e nosso país.

Votando em candidatos com uma plataforma clara e experiência comprovada em áreas como Educação, Ciência e Cultura. Atenção com candidatos que priorizam a “recuperação econômica”. Sem uma política clara de Educação, não há como crescer economicamente de forma melhor distribuída e sustentável. Com injustiça social, não há paz possível.

Comparecendo ao ato público hoje, 3 de setembro, às 16h, na Cinelândia. Eu estarei lá.

Encerro este texto com trechos de Carlos Drummond de Andrade que sempre invoco em momentos de grande tristeza e necessidade de caminharmos juntos. Vamos de mãos dadas.

Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas

(…)
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente”  Carlos Drummond de Andrade

O Museu Nacional viverá para sempre no meu coração. Viva Lucy, as múmias, os dinossauros, a Aranha do Mar, os insetos, os artefatos indígenas… Viva o Museu! Viva a Educação,  a Ciência e a Cultura!

 

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Showing 4 comments
  • Guilherme Peixoto
    Responder

    É isso ! Resumiu bem o absurdo ocorrido ! Lastimável !

    • Leticia Carneiro
      Responder

      Que bom que pude usar minha voz a serviço da sua. Vamos juntos pela Educação, Cultura e Ciência.

  • Neide Carvalho
    Responder

    Querida Letícia, orgulhosa de ter privado com vc na viagem a Minas e grata pela beleza de suas palavras. Foram perfeitas pra expressar nossos sentimentos. O Brasil sofre, mais uma vez, consequência do despreparo de nosso povo. Ouvi, hoje no rádio, que o último Presidente da República a visitar este museu foi Jucecilino Kubitschek!

    • Leticia Carneiro
      Responder

      Neide, querida! Vamos juntas na arte e na beleza, para mitigar a dor dos incêndios e a asfixia de nuvem de cinzas. Nosso sol há de brilhar mais do que as chamas destruidoras.

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