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	<title>Arquivos Luto - Viver Mais Simples</title>
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	<description>Viver Mais Simples</description>
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		<title>Entre dois amores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Jan 2021 13:46:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[gratidão]]></category>
		<category><![CDATA[Luto]]></category>
		<category><![CDATA[memórias felizes]]></category>
		<category><![CDATA[Caio]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>
		<category><![CDATA[Saudade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A amiga sábia me lembra: este dia de hoje, entre dois amores. Coincidência ou não, dia em que amanheço banhada de emoção por terminar o livro de Gilberto Dimenstein narrando seu percurso de câncer e morte. E portanto vida. Percurso que tracei junto a meu pai, Alberto, aniversariante do dia 28. E meu irmão Caio, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>A amiga sábia me lembra: este dia de hoje, entre dois amores.<br />
Coincidência ou não, dia em que amanheço banhada de emoção por terminar o <strong><em>livro de Gilberto Dimenstein narrando seu percurso de câncer e morte</em></strong>. E portanto vida.</p>
<p>Percurso que tracei junto a meu pai, Alberto, aniversariante do dia 28. E meu irmão Caio, cujo primeiro aniversário de morte será amanhã, 30 de janeiro.</p>
<p>Na maioria dos dias, estas duas saudades me acompanham silenciosas, velando carinhosamente o meu avanço diário sobre as tarefas e desafios.</p>
<p>Mas neste último mês, percebo-me envolta numa nuvem de tristeza, que me faz andar vagarosa e que me urge recolhimento e autocompaixão.</p>
<p>Sigo lidando com a vida como ela é, tomando providências, firme e prática como boa capricorniana. Mas o preço aparece logo: não tenho a mesma energia incansável, a vitalidade surpreendente. Para cada dia ou semana de trabalho, um longo período de recolhimento e pausa.</p>
<p>Sigo ambiciosa. Conciliando duas Formações intensas, uma em <em><a href="https://www.sbdg.org.br/site/programas/programa-de-formacao-em-desenvolvimento-dos-grupos/">Dinâmica de Grupos</a></em> e outra em, vejam só,<strong><em> Tanatologia e Cuidados Paliativos</em></strong>.</p>
<p>Parece loucura, mas navegar neste ambiente onde a vida (e a morte) são vistas sem pudores e com profundidade é curativo para mim.</p>
<p>Sinto-me impaciente com quase todas as coisas e pessoas. Contenho-me usando o treino de polidez que recebi ao longo dos anos. Mas não estranhem se estou mais calada ou distante.<br />
A carne anda viva e qualquer toque, por mais sutil, ressoa como ferida.</p>
<p>Surpreendo-me com a força e fragilidade que emergem da mesma fonte.</p>
<p>Por um lado, sinto-me mais pronta, menos ingênua. Do outro, sinto a energia escoar entre as pernas, sinto o coração machucado atemorizar-se diante das novas dores.</p>
<p>Não tenho nem palavras para descrever o vazio deixado pela partida de meu pai e meu irmão. É como se o mundo tivesse menos pessoas que me conheçam e me perdoem por tudo o que sabem da minha imperfeição.</p>
<p>A saudade se mistura como uma solidão imensa. São muitos os confortos que mitigam estes sentimentos: a espiritualidade, os abraços, os estudos, as amizades e amores vivos.</p>
<p>Ainda assim. Hoje todos os ossos e nervos doem. Latejam as conversas perdidas, os sorrisos, os olhares.</p>
<p>Hoje tudo o que eu sei sucumbe a tudo o que eu sinto. Nada a fazer. Respeitar as lágrimas, abraçar-me.<br />
Saber que amanhã é outro dia e depois mais outro.</p>
<p>Alguns, serão bons. Outros, não.</p>
<p>Escrevo para mim mesma, para que, ao ouvir-me, saiba que estou acompanhada por mim. E que me compreendo e aceito minha inconformidade com a Morte, em perfeita convivência com a inexorável certeza de que a Morte é inexorável.</p>
<p>Sou mãe de mim mesma. Irmã de mim mesma. E assim, aconchegada, ecoam dentro do meu corpo tudo que é meu pai e meu irmão.</p>
<p>Estamos separados por um véu. Hoje mais espesso. Amanhã, não sabemos.</p>
<p>Hoje é um dia entre amores.<br />
Viver este dia de olhos abertos, meu presente para nós três.</p>
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		<title>Nas beiradas da vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Mar 2020 21:02:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Luto]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vida, vida, vida. Palavra que pulsa em mim toda vez que sussurro seu nome. Até lembrar, dolorosamente, que você está morto. Um susto por que passo repetidamente, desde o final de janeiro. É como um pique-esconde desconcertante. Você me espreita nas esquinas do dia. Um e-mail sobre o inventário. Uma foto no celular. Uma mensagem [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Vida, vida, vida.<br />
Palavra que pulsa em mim toda vez que sussurro seu nome.</p>
<p>Até lembrar, dolorosamente, que você está morto.<br />
Um susto por que passo repetidamente, desde o final de janeiro.<br />
É como um pique-esconde desconcertante. Você me espreita nas esquinas do dia. Um e-mail sobre o inventário.  Uma foto no celular.  Uma mensagem amiga. As palavras &#8220;meus sentimentos&#8221; causam sobressalto.<br />
É como seu eu andasse distraída e alguém ou algo me recordasse: ele não está mais aqui.<br />
Mas como, não está?<br />
Se todo o tempo eu penso em você. E sinto saudades intermináveis.<br />
Parece até que o amor se quadruplicou agora que não posso mais te abraçar.<br />
Então eu sonho com você pedindo para eu dar meu gato para a outra irmã. Ou reconheço você em cada jovem que cruza meu caminho. E falo de você a cada trabalho e para cada nova pessoa que conheço.  E esbarro no rastro imenso que você deixou: seus trabalhos, seus amigos, suas mensagens.<br />
Sua voz dizendo &#8220;E aí, Lê&#8221; me persegue incansável. E eu chamo meu filho pelo seu nome.<br />
E choro, como choro.  E te peço perdão por chorar, pois sei que embora injusto, é preciso dizer adeus.<br />
Escuto as palavras de condolências automaticamente, até aquela que realmente  toca meu coração e me faz suspirar.<br />
E choro rio agradeço questiono aceito recuso e choro<br />
Cada dia<br />
Todo dia<br />
Quando papai morreu, era como se eu caminhasse na água. O ar era pesado e espesso.<br />
Com você, parece que carrego uma pedra enorme amarrada no meu peito.<br />
Novamente, a sensação de se difícil avançar. Só que agora, cada passo esgarça um pouco meu coração.<br />
Aos poucos retomo a rotina. O trabalho, as crianças, as miudezas.<br />
Mas a toda hora me assusto com sua ausência. E sinto-me desorganizada.<br />
Já se passaram dois meses, o ano já está no mês de seu aniversário. O dia 26 foi muito difícil.<br />
Lá fora, todos falam de COVID-19. Eu fico em casa, observo ora como arquibancada, ora sem saber como estender a mão, outras, estendendo demais.<br />
O resguardo foi de certa forma um alívio para dar tempo e espaço para tanta dor. Mas me sinto desorientada.  Não podia imaginar o quanto sua existência era sol e estrelas me guiando dia e noite.<br />
Tateio desajeitada por bússolas. E ainda tropeço no labirinto do viver sem você. Mesmo grata por você ter partido antes do vírus se espalhar, levando quem tem a imunidade baixa. Como você tinha.<br />
Ás vezes, parece que está tudo bem e é só um dia normal. Até que o caleidoscópio da tristeza gira e a nova imagem é uma agulhada profunda.<br />
Outro dia, vi um a mensagem que dizia: nunca superarmos a perda de alguém, apenas seguimos e ao seguir, vivemos sem ela.<br />
Eu nunca vou superar a sua ausência. Com sorte, pé ante pé, vou viver sem você.<br />
Só não sei quando ou onde.<br />
Agora, hoje, você é tudo o que eu não tenho, tudo o que eu não posso, tudo o que eu perdi.<br />
E este vazio dói para além das palavras, me roubando a coragem e a alegria.<br />
Procuro em vão por palavras para fechar o texto.<br />
Você deixou esta porta aberta para todo o sempre.<br />
Me despeço então assim mesmo, sabendo que a qualquer momento você surgirá novamente. Nas esquinas da vida, nas beiradas do dia, pulsando eternamente vivo dentro de mim.</p>
<p>30 de março. Dois meses.</p>
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