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	<title>Arquivos memórias felizes - Viver Mais Simples</title>
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	<description>Viver Mais Simples</description>
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		<title>Éramos quatro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Jun 2020 16:51:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[irmãos]]></category>
		<category><![CDATA[memórias felizes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Éramos quatro. Quatro irmãos profundamente diferentes, cada um com seu estilo próprio. Com Bernardo, compartilhei experiências corporativas, os filhos da mesma idade.  Também compartilhamos a experiência de ter famílias recasadas, de lidar com a complexidade de guardas compartilhadas, os meus, os seus e os nossos. Mariana, muito intuitiva, foi quem me ajudou a escolher o [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Éramos quatro.</p>
<p>Quatro irmãos profundamente diferentes, cada um com seu estilo próprio.</p>
<p>Com Bernardo, compartilhei experiências corporativas, os filhos da mesma idade.  Também compartilhamos a experiência de ter famílias recasadas, de lidar com a complexidade de guardas compartilhadas, os meus, os seus e os nossos.</p>
<p>Mariana, muito intuitiva, foi quem me ajudou a escolher o primeiro lar do Viver Mais Simples. Ela antecipou que eu moraria na rua Coelho Neto e eu estava com ela quando esbarrei no dono do apartamento que em seguida alugaria.</p>
<p>Com Caio, fui sócia da Argo, partilhei meus projetos autorais. Ele fez o design de tudo que criei. Eu organizei ideias dele e incentivei na bateria e no curso pouco ortodoxo para o pai engenheiro e a mãe médica.</p>
<p>Com os três, tentei ser um pouco mãe. Nenhum aceitou, cada um de seu jeito. E aos três agradeço por isto.</p>
<p>Com Bernardo e Mariana, vivi a dor da separação de nossos pais e o recomeço na casa com a madrasta. Vivenciei as viagens sozinhos para Brasília, onde mamãe morava.  Temos uma memória da vida em Niterói.</p>
<p>Abri caminhos para os três. E eles me retornaram com juros. Ensinando-me a ser mais desobediente, mais despreocupada, mais confiante na capacidade de cada um deles de tocar a própria vida do seu jeito.</p>
<p>Tenho memórias felizes com os três.</p>
<p>Choramos juntos nosso pai. Amamos juntos a Marília.</p>
<p>Vivemos muitos natais e poucos anos novos.  Celebramos a chegada do Léo, do Alê, da Olivia, do Rafa e da Gisela.</p>
<p>Bernardo e Mariana foram meus padrinhos no primeiro casamento. Caio foi pajem.</p>
<p>Eu batizei Alê. Bernardo batizou Gisela. Caio batizou Rafa.</p>
<p>Acolhi cada um de meus irmãos. Fui acolhida por cada um de meus irmãos.</p>
<p>Tive raiva, saudade, amor.</p>
<p>Os três habitam poemas meus. Os três habitam meu coração.</p>
<p>Este ano, uma enorme mudança.</p>
<p>Agora somos três. Caio, que chegou depois, nos surpreendeu. Partiu antes.</p>
<p>Eu, Bernardo e Mariana.</p>
<p>De volta naquele tempo antes de 1989. Só nós três.</p>
<p>Tivemos diferenças. Temos. Mas no final, de um jeito ou de outro, atravessamos.</p>
<p>Os três que ficaram.</p>
<p>Não há um dia em que eu não pense na minha família. Toda a dor e alegria que vivemos.  A dificuldade de conciliar nossa individualidade.</p>
<p>As reações peculiares de cada um a nossas dores comuns: a morte, a doença, a loucura.</p>
<p>Nossa união na hora necessária: Os inventários, as festas de família, os velórios, os casamentos, os divórcios.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje, um deles faz 45 anos.</p>
<p>Não poderemos comemorar como gostamos, com festa, bolo, piadas e implicância.</p>
<p>No entanto, posso ouvi-los no meu coração. Na última viagem de todos, naquela final de semana em Teresópolis. Nos lanches, onde futucávamos uns aos outros. No plantio do cajueiro de papai. Na entrega do Caio para o mar.</p>
<p>O amor não é suficiente, eu sei.  É preciso cultivo. Mas é uma raiz boa para florescer.</p>
<p>Eu eu floresço nas semelhanças e diferenças com meus irmãos e irmã.</p>
<p>Éramos quatro. Agora somos três. Neste plano, claro.</p>
<p>E eu desejo novas memórias, com mais celebrações do que despedidas. Mas sabendo que haverá despedidas.</p>
<p>E inventários. Sacríficios. Conversas difíceis.  Fracassos.</p>
<p>E casamentos. Batizados. Formaturas. Abraços. Sucessos.</p>
<p>Resigno-me com as inevitáveis cicatrizes, antevendo as igualmente inevitáveis alegrias.</p>
<p>Hoje agradeço pela vida de meus irmãos que ficaram.  Especialmente o aniversariante.</p>
<p>Que as recordações doces e amargas iluminem nossos caminhos. E que sempre haja amor para recomeçar.</p>
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		<title>Uma vida feliz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Jun 2020 18:01:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[memórias felizes]]></category>
		<category><![CDATA[meu quintal]]></category>
		<category><![CDATA[raízes fundas]]></category>
		<category><![CDATA[Regina]]></category>
		<category><![CDATA[Saudade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje é aniversário de minha avó Regina. Seriam 90. Vovó já subiu para o andar de cima há 26 anos, mas segue uma referência crucial na gestação de quem eu sou. Minhas mechas cada vez mais grisalhas são um lembrete constante de suas lições inesquecíveis, seu amor infinito, sua brandura e aconchego. Fazia tempo que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje é aniversário de minha avó Regina. Seriam 90.</p>
<p>Vovó já subiu para o andar de cima há 26 anos, mas segue uma referência crucial na gestação de quem eu sou. Minhas mechas cada vez mais grisalhas são um lembrete constante de suas lições inesquecíveis, seu amor infinito, sua brandura e aconchego.</p>
<p>Fazia tempo que a saudade não vinha tão aguda. Mas a data redonda, o tempo confinado, a saudade das avós de meus filhos&#8230; Tudo isso contribuiu para remexer o baú de memórias. E que memórias.</p>
<p>Minha avó me recebia em sua casa em Campos, bananinhas envoltas em papel alumínio na gaveta do móvel da sala. Bem baixinho para os netos alcançarem.</p>
<p>Ela era uma avó que trabalhava, ia na Avenida Pelinca fazer compras e resolver coisas. Minha avó enviuvou aos 33 anos, grávida da sexta filha e nunca mais se casou. Por isso, sempre foi a provedora e resolvedora de tudo. Tinha a ajuda luxuosa de Cirley, seu braço direito. E sabia lidar com paciência com a mau-humorada funcionária. Entre as duas, eu me senti em casa, protegida, num mundo realmente mágico.</p>
<p>Ainda me recordo da máquina de costura com seus carretéis. Anos antes de <a href="http://www.vivermaissimples.com/caixadecosturas/"><b><i>eu mesma experimentar esta arte</i></b></a>. Dos livros que nunca mais vi em nenhum outro lugar, com histórias fascinantes e capas grossas. Eu os revisitava todas as férias, sem nunca enjoar.</p>
<p>A comida e as refeições sempre foram um ponto alto. O almoço de bife acebolado, croquete de banana, arroz, feijão e salada de alface temperadinha. Ainda me lembro de Cirley martelando os bifes, incansável.</p>
<p>Á tarde, pão francês, queijo prato e café com leite. Lanches deliciosos, com muita conversa e bons conselhos.</p>
<p>Eu tive um namorado em Campos, aos 17 anos. E dei muito trabalho a esta avó, mas que privilégio este convívio! Ela já deve ter me perdoado a esta altura. E eu, sou cada vez mais grata por tudo.</p>
<p>O quintal da vovó era de cimento e tinha plantas. Eu experimentava as folhas, ficava fascinada com a mangueira e as buganvílias, estas últimas &#8220;emprestadas &#8221; da vizinha. As raízes, do outro lado do muro. As flores, generosamente derramadas em tons de rosa e  lilás.</p>
<p>Vovó tinha muitas amigas mais jovens e eu frequentava suas casas, para brincar com as filhas da minha idade. Hoje percebo esta capacidade de minha avó fazer amizades com todo o tipo de gente, homem, jovem, solteiro, casado. Era uma rainha também em relacionar-se com o outro.</p>
<p>Ela me mostrou o valor de ter um trabalho. Nasci quando ela tinha apenas 40 anos, então pude vivenciar uma avó na ativa, indo e vindo do Liceu em Campos. Uma lição para mim, que até hoje adoro trabalhar e ser mãe, tudo misturado. Como ela.</p>
<p>Minha avó abria portas. Assim me presenteou com a <strong><em><a href="http://www.vivermaissimples.com/minha-poesia/">primeira edição do livro de poemas,</a></em></strong> no ano em que meus pais se separaram. Ela sempre incentivou meus talentos. Com ela, eu me sentia segura, especial, invencível.</p>
<p>Á noite a <em><strong>famosa esponjinh</strong></em><em><strong>a,</strong></em> para que a neta cansada não tivesse que tomar outro banho. Cuidado, carinho, na medida certa.</p>
<p>Também se permitia seus prazeres: retiros sem a família, a prática do Yoga, telefonemas intermináveis num tempo em que isto era bem caro&#8230; E o Roberto Carlos, paixão até o fim.</p>
<p>Eu não sabia do tanto que minha avó tinha sofrido na vida. Só me dei conta já adulta. Perdeu a mãe de forma trágica, ainda criança. Depois, a viuvez precoce, quando minha mãe,  filha mais velha, tinha apenas nove anos e a mais nova, ainda estava na barriga.  Um filho morreu antes dos 35, como o marido dela.  Um irmão querido perdido cedo para o câncer.  Histórias de dificuldade financeira, renascimento, luta. Travessia que só foi possível pela fé, humildade em receber ajuda e muita frugalidade.  Minha avó era uma mulher de pouca vaidade, muito trabalho e muita dedicação aos outros. Passou a vida retribuindo tudo que recebeu quando foi viúva e os amigos do marido falecido vieram acudir.</p>
<p>E ainda assim, quando minha filha me perguntou: &#8220;Mas ela teve uma vida feliz&#8221;. Eu sorri e chorei, convicta: &#8220;sim, ela teve uma vida feliz&#8221;.</p>
<p>Hoje eu tenho 47 anos e estou confinada em minha casa, enquanto o Brasil segue firme para a liderança de casos e mortes por Coronavírus. Acompanho triste a conversa da mesma filha com uma coleguinha, as duas sofrendo com a incerteza, a falta de senso alheio e a negligência de nossos governantes.</p>
<p>De onde eu tiro a coragem para seguir acreditando na vida, na Humanidade, no Brasil? Deve ser da minha avó Regina.</p>
<p>Imagino minha avó, nas noites mais sombrias de sua vida.  Deve ter sido escuro e frio ali. E ainda assim, minha memória é dela pacífica, grata por tudo, suave.</p>
<p>Intuo que nas minhas própria noites mais geladas, é ela quem me cobre com sua coberta de esperança, resiliência e fé. Ela que sempre celebrou a beleza dos encontros, a festa de estar junto, a alegria de partilhar. Enrosco-me neste cobertor bem quentinho de lembranças de minha avó. Fortalecida pelas léguas que ela caminhou, me disponho a caminhar mais um passo.</p>
<p>A voz da bisneta se repete: &#8220;Ela levou uma vida feliz?&#8221;.</p>
<p>E eu sorrio, entre lágrimas de saudade. Sim. Uma vida feliz não se faz de eventos felizes. Se faz de inteireza nas escolhas, generosidade e paciência.</p>
<p>Peço mansidão e humildade para, ao fim de minha vida, poder dizer alto e claro:</p>
<p><strong>Sim. Eu também levei uma vida feliz.</strong></p>
<p>Nem meus mortos, nem os desafios mais duros, nem os descalabros dos outros me roubarão esta alegria enquanto eu puder beber da fonte inesgotável do legado de minha avó Regina.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Faz um ano&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Jul 2018 21:15:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[gratidão]]></category>
		<category><![CDATA[memórias felizes]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[Meu pai]]></category>
		<category><![CDATA[vivermaissimples]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Faz um ano que me tornei órfã de você. Cada uma das quatro letras repleta de saudades, lembranças e muito espanto. Ainda é tão acesa a memória de sua cabeça quente sob minhas mãos. Do choro caudaloso após ser surpreendida por este contato inesperado entre a borda de sua vida e de sua  morte. Depois, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Faz um ano que me tornei órfã de você. Cada uma das quatro letras repleta de saudades, lembranças e muito espanto.</p>
<p>Ainda é tão acesa a memória de sua cabeça quente sob minhas mãos. Do choro caudaloso após ser surpreendida por este contato inesperado entre a borda de sua vida e de sua  morte.</p>
<p>Depois, a sensação de caminhar na água, por meses a fio. O ar era água. Tudo era água, dentro e fora de mim.</p>
<p>Meus dias foram uma aquarela, aos poucos ganhando novo contorno. Nitidez, nova textura. E se apropriando do novo título.</p>
<p>Órfã.</p>
<p>Não sei explicar tudo que vem com este substantivo.  Um mundo de sensações e aprendizagens entre a boca aberta no início e o &#8220;Ahn?&#8221; do final.</p>
<p>Estupefata, descubro o que todos me diziam. A saudade não passa nunca. Se depender de mim, Alberto bailará no reino do lembrados por muito tempo.</p>
<p>A Orfandade me faz atônita, mas também traz coisas belas.</p>
<p>A surpresa de ver quão vivo você mora em mim. Nas palavras, valores, memórias incontáveis. Como te perder fora, consolidou você dentro. Meu pai.</p>
<p>Volta e meia choro. Com frequência. E a lágrima é alívio e homenagem. Eu estou viva e choro a sua morte.  Mas sobretudo, estou viva. E amo esta vida ainda mais, mesmo sem você por perto.</p>
<p>Sua partida deixou as cores mais marcantes.  Deixou os encontros com os tios na Chacrinha mais significativos.  Fez-me amar a Ribeira, como nunca antes.  Porque a Ribeira agora é o solo sagrado onde você repousa e é também legado, história, esperança, futuro.</p>
<p>Tudo é diferente. E mesmo a tristeza não rouba o valioso de estar tão mais desperta para a saúde, o amor, o estar juntos. E tão indisponível para certas discussões inúteis, desgastes desnecessários,  futilidades.</p>
<p>Sua morte me faz acreditar que cada dia vale mais que antes.  Não há tempo a perder com brigas, reclamações, mágoas sem sentido.</p>
<p>Tudo urge, tudo pulsa, tudo é força de transformação.</p>
<p>Você me mostrou de forma tão concreta: meu pai doente, virou um morto sereno, então cinza e agora cajueiro.</p>
<p>Tudo ficou menos morto. Apesar de você ter morrido.</p>
<p>Eu agora saboreio os minutos com a certeza de que são preciosos. Por que cada minuto ao seu lado, revela-se um tesouro. Mesmo os mais doídos.  Tudo é você, agora infinito.</p>
<p>Faz um ano.</p>
<p>Hoje, passei o dia perambulando entre as recordações e cuidando de sua neta doente.  Passado e futuro entrelaçados, e o meu choro intermitente sendo a ponte entre as gerações.</p>
<p>Você está morto e eu, órfã.</p>
<p>Abracei outros órfãos desde então. Viúvas também.  E fui mais solidária do que antes, porque agora aprendi coisas novas que apenas sua morte poderia me ensinar.</p>
<p>Esta estreia é vitalícia. Serei doravante órfã.  Não poderia  imaginar que haveria uma parte doce.  Que haveria motivos por que agradecer.</p>
<p>Gosto-me mais assim.</p>
<p>Mas seu eu pudesse, ah, seu eu pudesse.</p>
<p>Como gostaria de mais uma conversa entre nós&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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