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	<title>Arquivos simplicidade - Viver Mais Simples</title>
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		<title>Prateando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Aug 2018 12:41:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[simplicidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando me casei, há mais de vinte anos, estava determinada a não ter nenhum item de prata. Eu desprezava o trabalho que arear as peças me daria e fui uma orgulhosa dona de casa com armários repletos de inox, madeira e louça. Ano passado, meu pai morreu. E das muitas heranças afetivas, ficaram os três [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando me casei, há mais de vinte anos, estava determinada a não ter nenhum item de prata.</p>
<p>Eu desprezava o trabalho que arear as peças me daria e fui uma orgulhosa dona de casa com armários repletos de inox, madeira e louça.</p>
<p>Ano passado, meu pai morreu. E das muitas heranças afetivas, ficaram os três únicos itens que minha madrasta concedeu levar da casa antiga dele para o lar do novo casal:</p>
<p>Uma bandeja de prata, um conjunto de xícaras de louça e um aparelho de jantar.</p>
<p>Um dos legados de meu pai é o cultivo a relações harmoniosas na família. Por isto, não se espante em saber que minha mãe e madrasta comemoraram juntas, pela segunda, vez o dia das mães.  Num momento a sós, minha madrasta se lembrou dos três itens e disse para minha mãe que ela os deveria levar consigo, eram seus por direito.</p>
<p>Minha mãe  retrucou: &#8220;três presentes, três filhos. Vamos sortear?&#8221;</p>
<p>E assim recebi, um pouco contrariada, a bandeja de prata ofertada por Dedê, um dos padrinhos do casamento de meus pais.</p>
<p>A peça é linda, porém volumosa.  Logo encontrou moradia numa estante na sala, de onde me observava diariamente.</p>
<p>Estava encardida e oxidada, após tantos anos sem uso.</p>
<p>E aí começou a magia.</p>
<p>Primeiro fui consultar o Google (&#8220;como arear  prata?&#8221;), já que meu exemplar de <em><strong><a href="https://www.saraiva.com.br/sebastiana-quebra-galho-424001.html">Sebastiana Quebra-Galho</a></strong></em> foi doado há muito tempo&#8230;</p>
<p>Eu sabia que o ideal era um determinado produto tradicional, que eu temia estar fora do mercado (hoje sei que foi comprado por uma multinacional e tenho uma lata de letras miúdas na despensa&#8230;).</p>
<p>Mas até encontrá-lo, experimentei com fórmulas caseiras, até chegar na pasta de dente.  Funcionou. A bandeja transformada e eu, junto.</p>
<p>Pois não é que este ritual me aproximou de meu pai?</p>
<p>Primeiro, um sentimento de estar honrando um dos poucos itens de valor afetivo para ele, que não era nada acumulador (exceto livros&#8230;).  Arear a bandeja tornou-se um carinho.</p>
<p>Depois, a reflexão sobre a ciência por trás da oxidação da prata. Tudo que é ciência natural me aproxima do meu pai, um inventor apaixonado que ficava irritado quando eu afirmava que algo não era natural:  &#8220;o homem é parte da Natureza, portanto suas obras são também naturais&#8221;.</p>
<p>Hoje foi novamente dia de arear a bandeja.  Agora equipada com o tal produto mais efetivo, pude me demorar no acabamento.  O brilho da prata recordando o brilho dos olhos do meu pai, de seu sorriso um pouco raro, mas sempre especial.</p>
<p>Espero um amigo, a bandeja ocupada por xícaras, copo, água e café. E me lembro que aprendi a fazer café para meu pai. E me lembro do &#8220;super-copão&#8221; de água com gelo que era minha especialidade e ele adorava.</p>
<p>As lágrimas, também prateadas, escorrem livremente. Pratear. Prantear. Tudo junto e misturado.</p>
<p>A bandeja tornou-se um tesouro (eu que também não sou acumuladora. Nem de livros).</p>
<p>Arear a prata tornou-se um ritual de saudade.</p>
<p>Luto é uma travessia sem ponto de chegada. Aconchego-me nestas pequenas experiências e meu pai fica aqui dentro, bem quentinho.</p>
<p>Todo prata prateado.</p>
<p>&nbsp;</p>
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