Em 21 de dezembro de 2009, entreguei meu crachá de executiva para trilhar solo novo. Escolhia Viver Mais Simples.
No início, era um maravilhamento: descalçar os pés, experimentar, viver a maternidade cotidiana. Assim passou o tempo e, com um olho fechado e um olho aberto, passaram-se oito anos.
O que começou com um tatear no escuro, abriu mil portas e janelas. E alguns abismos. Em 2017, havia encerrado um longo casamento e havia perdido meu pai. Encontrei um novo amor, que me ensinou muito. Até que precisei seguir em frente, no meio da pandemia e com a perda de um irmão mais novo na bagagem.
O trabalho havia evoluído: dos primeiros passos em Reorientação de Carreira e Organização de Ideias voltei a navegar novamente no mundo corporativo em workshops de liderança, comunicação, desenvolvimento de pessoas, Inclusão e Diversidade. Desenvolvi vários modelos de mentorias individuais. Fiz experimentos autênticos em diversos campos: comida, estratégia de marca, autoconhecimento, voluntariado…
E assim se passaram mais tantos anos. Em 2026, serão dezessete anos de Viver Mais Simples.
Não mais um movimento pela frugalidade e por recuperar-me de um burn out profundo. Foram 17 anos de estudo, de trabalho, de testar-me em novas águas constantemente. Agora, o Viver Mais Simples era sobre humanizar caminhos (meus e dos outros).
Em 2023, uma última crise. Atravessava-me um pensamento persistente de que eu iria morrer aos 61 anos. Um desânimo, um medo, uma falta de propósito?
Por sorte e escolha, sempre andei muito bem apoiada numa rede de médicos, terapeutas e outras relações afetivas de crescimento. Foi meu psiquiatra quem provocou: “Quem sabe morrerá uma Leticia para nascer outra?”. Fui fisgada pela pergunta e um mês depois, havia me inscrito no Curso de Psicologia.
Novamente universitária, comecei a integrar os saberes de todos os lados. Uma angústia profunda me tomava: como honrar tantos anos no mundo corporativo e tantos anos explorando novos caminhos? Como fazer sem desperdício, mas com força e energia?
A resposta está sendo construída, no dia a dia desta atual aventura.
Confiei na colheita dos últimos tempos:
- Os estudos e formações em Luto, Cuidados Paliativos, Facilitação, Dinâmicas de Grupo e Estruturas Libertadoras.
- A vivência da maternidade de adolescentes e jovens adultos
- A experiência de um novo amor, mais maduro (e portanto desafiador)
- Os inúmeros trabalhos com pessoas e organizações, cada vez mais profundos
Tudo isso fundiu minha vida pessoal e profissional de forma ainda mais profunda. O Viver Mais Simples agora tem mais a ver com lançar-me no mundo, de olhos abertos. Mas não é aquela aventura sem bordas dos primeiros tempos.
Agora é uma odisseia pelo mundo da luz e sombra, com um olhar compassivo e desejoso de provocar transformações no campo da Humanização do Trabalho e do Luto.
Há muitas contradições e medos, mais do que antes. Há muito muito mais recursos também.
Viver Mais Simples hoje é uma mescla de autenticidade, coragem, compaixão e perpétuo explorar de mim mesma. A serviço de um mundo mais justo, compassivo, em paz.
Passei um bom tempo mais recolhida, internalizando tanta coisa a digerir, tanta travessia. Agora sinto um novo ímpeto de voar, com asas mais fustigadas pelos ventos da vida, portanto mais fortes.
Voemos juntos. Vamos?