No tempo entre tempos
O coração kinsutgi novamente cicatriza.
Os sulcos por onde correram as lágrimas, as marcas das palavras ferinas. O buraco onde morava a esperança morredoura.
Ainda há muito do que se despedir, mas a pele já se regenera.
É assim. Navego entre ventos, mergulho fundo para a onda grande passar. Piso no chão com o cuidado de não me rasgar nas pedras.
É assim. Com a suavidade e a tristeza resignada das travessias.
Hoje já me sei beduína. Incontáveis desertos. Sempre haverá o oásis. Esta certeza me move.
Hoje passo mais tempo submersa nos abismos da alma, a inocência pouco me servia. Seu fim deixou um oco profundo e necessário.
Acostumo-me com a escuridão.
Invoco-me Perséfone. Conjuro toda a intuição e magia contra todo o mal.
O veneno me arde por dentro, perturbando minhas veias.
Sou antídoto.
O amor por mim mesma é antídoto.
A potência de mil mulheres antes de mim me sustenta. A chama da generosa força me move. O que dói aqui dentro não me fará sucumbir. Tudo sangra, mas não vou me perder de mim.
Os sonhos de areia, minha perdição repetida, soçobram.
No oceano, enfim, encontrarei minha paz.