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	<title>Arquivos luto - Viver Mais Simples</title>
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	<description>Viver Mais Simples</description>
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		<title>Entre dois amores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Jan 2021 13:46:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[gratidão]]></category>
		<category><![CDATA[Luto]]></category>
		<category><![CDATA[memórias felizes]]></category>
		<category><![CDATA[Caio]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
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		<category><![CDATA[Saudade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A amiga sábia me lembra: este dia de hoje, entre dois amores. Coincidência ou não, dia em que amanheço banhada de emoção por terminar o livro de Gilberto Dimenstein narrando seu percurso de câncer e morte. E portanto vida. Percurso que tracei junto a meu pai, Alberto, aniversariante do dia 28. E meu irmão Caio, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A amiga sábia me lembra: este dia de hoje, entre dois amores.<br />
Coincidência ou não, dia em que amanheço banhada de emoção por terminar o <strong><em>livro de Gilberto Dimenstein narrando seu percurso de câncer e morte</em></strong>. E portanto vida.</p>
<p>Percurso que tracei junto a meu pai, Alberto, aniversariante do dia 28. E meu irmão Caio, cujo primeiro aniversário de morte será amanhã, 30 de janeiro.</p>
<p>Na maioria dos dias, estas duas saudades me acompanham silenciosas, velando carinhosamente o meu avanço diário sobre as tarefas e desafios.</p>
<p>Mas neste último mês, percebo-me envolta numa nuvem de tristeza, que me faz andar vagarosa e que me urge recolhimento e autocompaixão.</p>
<p>Sigo lidando com a vida como ela é, tomando providências, firme e prática como boa capricorniana. Mas o preço aparece logo: não tenho a mesma energia incansável, a vitalidade surpreendente. Para cada dia ou semana de trabalho, um longo período de recolhimento e pausa.</p>
<p>Sigo ambiciosa. Conciliando duas Formações intensas, uma em <em><a href="https://www.sbdg.org.br/site/programas/programa-de-formacao-em-desenvolvimento-dos-grupos/">Dinâmica de Grupos</a></em> e outra em, vejam só,<strong><em> Tanatologia e Cuidados Paliativos</em></strong>.</p>
<p>Parece loucura, mas navegar neste ambiente onde a vida (e a morte) são vistas sem pudores e com profundidade é curativo para mim.</p>
<p>Sinto-me impaciente com quase todas as coisas e pessoas. Contenho-me usando o treino de polidez que recebi ao longo dos anos. Mas não estranhem se estou mais calada ou distante.<br />
A carne anda viva e qualquer toque, por mais sutil, ressoa como ferida.</p>
<p>Surpreendo-me com a força e fragilidade que emergem da mesma fonte.</p>
<p>Por um lado, sinto-me mais pronta, menos ingênua. Do outro, sinto a energia escoar entre as pernas, sinto o coração machucado atemorizar-se diante das novas dores.</p>
<p>Não tenho nem palavras para descrever o vazio deixado pela partida de meu pai e meu irmão. É como se o mundo tivesse menos pessoas que me conheçam e me perdoem por tudo o que sabem da minha imperfeição.</p>
<p>A saudade se mistura como uma solidão imensa. São muitos os confortos que mitigam estes sentimentos: a espiritualidade, os abraços, os estudos, as amizades e amores vivos.</p>
<p>Ainda assim. Hoje todos os ossos e nervos doem. Latejam as conversas perdidas, os sorrisos, os olhares.</p>
<p>Hoje tudo o que eu sei sucumbe a tudo o que eu sinto. Nada a fazer. Respeitar as lágrimas, abraçar-me.<br />
Saber que amanhã é outro dia e depois mais outro.</p>
<p>Alguns, serão bons. Outros, não.</p>
<p>Escrevo para mim mesma, para que, ao ouvir-me, saiba que estou acompanhada por mim. E que me compreendo e aceito minha inconformidade com a Morte, em perfeita convivência com a inexorável certeza de que a Morte é inexorável.</p>
<p>Sou mãe de mim mesma. Irmã de mim mesma. E assim, aconchegada, ecoam dentro do meu corpo tudo que é meu pai e meu irmão.</p>
<p>Estamos separados por um véu. Hoje mais espesso. Amanhã, não sabemos.</p>
<p>Hoje é um dia entre amores.<br />
Viver este dia de olhos abertos, meu presente para nós três.</p>
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		<title>Vivo em mim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Jan 2021 12:54:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[Meu pai]]></category>
		<category><![CDATA[Saudade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Oi, Pai. Hoje faz 72 anos que você nasceu. Celebraríamos num jantar em família, você entre radiante de estar com a gente e rabugento, para manter a fama&#8230; Imagino seu ponto de vista sobre tudo o que está acontecendo. Seu convite para mantermos a calma, nos mantermos unidos. Suas perguntas e seus conselhos. Com sorte, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Oi, Pai.</p>
<p>Hoje faz 72 anos que você nasceu.</p>
<p>Celebraríamos num jantar em família, você entre radiante de estar com a gente e rabugento, para manter a fama&#8230;</p>
<p>Imagino seu ponto de vista sobre tudo o que está acontecendo. Seu convite para mantermos a calma, nos mantermos unidos. Suas perguntas e seus conselhos.</p>
<p>Com sorte, seria um daqueles dias em que eu faria um cafuné na sua cabeça calva e você me daria um sorriso de lado.  Eu ou um de meus irmãos faríamos uma brincadeira implicante contigo e você sorriria entre tímido e desajeitado.</p>
<p>Suspiro.</p>
<p>Aceito a inevitabilidade da vida morte vida, que leva pessoas que eu amo e traz novos desafios de adulta.  Eu querendo descansar e a vida me beliscando.</p>
<p>A tristeza corre mansa, quente e funda aqui dentro. Não tive tempo ainda para chorar todas as lágrimas. Você, Caio. Tão perto um do outro.</p>
<p>Fiz o que tinha que fazer: estendi a mão, fui firme, segui em frente.</p>
<p>Mas também fiz o que podia fazer. Tardes enrodilhada em mim mesma, segurando o meu próprio coração. Um desejo de ser mais eremita, inédito. Uma paciência e capacidade de perdão crescentes.</p>
<p>O cansaço é também bom professor.</p>
<p>Minha teimosia é desafiada pelas ondas altas, pelos pequenos e grandes revezes, pelo atordoamento com o estado das coisas no mundo.</p>
<p>Eu poderia estar com um grande torcicolo de esticar meu pescoço para tentar entender e alcançar a complexidade da pandemia, das guerras e ódios. Meu luto me salva.</p>
<p>Retorno para dar colo a mim mesma, desligo o noticiário e telefone. Sou só eu e todos os meus mortos aqui dentro de mim.</p>
<p>Não tenho raiva de Deus nem lamento injustiças. Foi o que foi.</p>
<p>A cicatriz larga, do tamanho de meu amor por você, se chama saudade.</p>
<p>A lista de tarefas segue grande, o mundo lá fora me chama com o trabalho, a maternidade, os cuidados com os outros que precisam.</p>
<p>Mas por um instante, sou eu, menina de novo, ouvindo suas histórias, aprendendo a ser gente grande a partir de seus passos, questionando e desafiando você, me afastando e me reaproximando.</p>
<p>Por um instante, sou apenas sua filha. Todos os outros papéis empilhados no canto do escritório.</p>
<p>O ar torna-se oceano mais uma vez. Avanço lentamente, sabendo que não há outro jeito.</p>
<p>Sem urgência em chegar a algum lugar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Respiro gratidão, lágrima salgada e resignação.</p>
<p>Hoje é mais um dia sem você.</p>
<p>Hoje é  mais um dia com você.</p>
<p>Sempre sua mais velha, irreverente, leal e cheia de asas filha.</p>
<p>Asas que você me ajudou a formar com seus nãos e sims.</p>
<p>Minha saudade é para sempre. Meu luto é para sempre. Meu coração é para sempre.</p>
<p>Seu.</p>
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		<title>Uma vida feliz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Jun 2020 18:01:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[memórias felizes]]></category>
		<category><![CDATA[meu quintal]]></category>
		<category><![CDATA[raízes fundas]]></category>
		<category><![CDATA[Regina]]></category>
		<category><![CDATA[Saudade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje é aniversário de minha avó Regina. Seriam 90. Vovó já subiu para o andar de cima há 26 anos, mas segue uma referência crucial na gestação de quem eu sou. Minhas mechas cada vez mais grisalhas são um lembrete constante de suas lições inesquecíveis, seu amor infinito, sua brandura e aconchego. Fazia tempo que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje é aniversário de minha avó Regina. Seriam 90.</p>
<p>Vovó já subiu para o andar de cima há 26 anos, mas segue uma referência crucial na gestação de quem eu sou. Minhas mechas cada vez mais grisalhas são um lembrete constante de suas lições inesquecíveis, seu amor infinito, sua brandura e aconchego.</p>
<p>Fazia tempo que a saudade não vinha tão aguda. Mas a data redonda, o tempo confinado, a saudade das avós de meus filhos&#8230; Tudo isso contribuiu para remexer o baú de memórias. E que memórias.</p>
<p>Minha avó me recebia em sua casa em Campos, bananinhas envoltas em papel alumínio na gaveta do móvel da sala. Bem baixinho para os netos alcançarem.</p>
<p>Ela era uma avó que trabalhava, ia na Avenida Pelinca fazer compras e resolver coisas. Minha avó enviuvou aos 33 anos, grávida da sexta filha e nunca mais se casou. Por isso, sempre foi a provedora e resolvedora de tudo. Tinha a ajuda luxuosa de Cirley, seu braço direito. E sabia lidar com paciência com a mau-humorada funcionária. Entre as duas, eu me senti em casa, protegida, num mundo realmente mágico.</p>
<p>Ainda me recordo da máquina de costura com seus carretéis. Anos antes de <a href="http://www.vivermaissimples.com/caixadecosturas/"><b><i>eu mesma experimentar esta arte</i></b></a>. Dos livros que nunca mais vi em nenhum outro lugar, com histórias fascinantes e capas grossas. Eu os revisitava todas as férias, sem nunca enjoar.</p>
<p>A comida e as refeições sempre foram um ponto alto. O almoço de bife acebolado, croquete de banana, arroz, feijão e salada de alface temperadinha. Ainda me lembro de Cirley martelando os bifes, incansável.</p>
<p>Á tarde, pão francês, queijo prato e café com leite. Lanches deliciosos, com muita conversa e bons conselhos.</p>
<p>Eu tive um namorado em Campos, aos 17 anos. E dei muito trabalho a esta avó, mas que privilégio este convívio! Ela já deve ter me perdoado a esta altura. E eu, sou cada vez mais grata por tudo.</p>
<p>O quintal da vovó era de cimento e tinha plantas. Eu experimentava as folhas, ficava fascinada com a mangueira e as buganvílias, estas últimas &#8220;emprestadas &#8221; da vizinha. As raízes, do outro lado do muro. As flores, generosamente derramadas em tons de rosa e  lilás.</p>
<p>Vovó tinha muitas amigas mais jovens e eu frequentava suas casas, para brincar com as filhas da minha idade. Hoje percebo esta capacidade de minha avó fazer amizades com todo o tipo de gente, homem, jovem, solteiro, casado. Era uma rainha também em relacionar-se com o outro.</p>
<p>Ela me mostrou o valor de ter um trabalho. Nasci quando ela tinha apenas 40 anos, então pude vivenciar uma avó na ativa, indo e vindo do Liceu em Campos. Uma lição para mim, que até hoje adoro trabalhar e ser mãe, tudo misturado. Como ela.</p>
<p>Minha avó abria portas. Assim me presenteou com a <strong><em><a href="http://www.vivermaissimples.com/minha-poesia/">primeira edição do livro de poemas,</a></em></strong> no ano em que meus pais se separaram. Ela sempre incentivou meus talentos. Com ela, eu me sentia segura, especial, invencível.</p>
<p>Á noite a <em><strong>famosa esponjinh</strong></em><em><strong>a,</strong></em> para que a neta cansada não tivesse que tomar outro banho. Cuidado, carinho, na medida certa.</p>
<p>Também se permitia seus prazeres: retiros sem a família, a prática do Yoga, telefonemas intermináveis num tempo em que isto era bem caro&#8230; E o Roberto Carlos, paixão até o fim.</p>
<p>Eu não sabia do tanto que minha avó tinha sofrido na vida. Só me dei conta já adulta. Perdeu a mãe de forma trágica, ainda criança. Depois, a viuvez precoce, quando minha mãe,  filha mais velha, tinha apenas nove anos e a mais nova, ainda estava na barriga.  Um filho morreu antes dos 35, como o marido dela.  Um irmão querido perdido cedo para o câncer.  Histórias de dificuldade financeira, renascimento, luta. Travessia que só foi possível pela fé, humildade em receber ajuda e muita frugalidade.  Minha avó era uma mulher de pouca vaidade, muito trabalho e muita dedicação aos outros. Passou a vida retribuindo tudo que recebeu quando foi viúva e os amigos do marido falecido vieram acudir.</p>
<p>E ainda assim, quando minha filha me perguntou: &#8220;Mas ela teve uma vida feliz&#8221;. Eu sorri e chorei, convicta: &#8220;sim, ela teve uma vida feliz&#8221;.</p>
<p>Hoje eu tenho 47 anos e estou confinada em minha casa, enquanto o Brasil segue firme para a liderança de casos e mortes por Coronavírus. Acompanho triste a conversa da mesma filha com uma coleguinha, as duas sofrendo com a incerteza, a falta de senso alheio e a negligência de nossos governantes.</p>
<p>De onde eu tiro a coragem para seguir acreditando na vida, na Humanidade, no Brasil? Deve ser da minha avó Regina.</p>
<p>Imagino minha avó, nas noites mais sombrias de sua vida.  Deve ter sido escuro e frio ali. E ainda assim, minha memória é dela pacífica, grata por tudo, suave.</p>
<p>Intuo que nas minhas própria noites mais geladas, é ela quem me cobre com sua coberta de esperança, resiliência e fé. Ela que sempre celebrou a beleza dos encontros, a festa de estar junto, a alegria de partilhar. Enrosco-me neste cobertor bem quentinho de lembranças de minha avó. Fortalecida pelas léguas que ela caminhou, me disponho a caminhar mais um passo.</p>
<p>A voz da bisneta se repete: &#8220;Ela levou uma vida feliz?&#8221;.</p>
<p>E eu sorrio, entre lágrimas de saudade. Sim. Uma vida feliz não se faz de eventos felizes. Se faz de inteireza nas escolhas, generosidade e paciência.</p>
<p>Peço mansidão e humildade para, ao fim de minha vida, poder dizer alto e claro:</p>
<p><strong>Sim. Eu também levei uma vida feliz.</strong></p>
<p>Nem meus mortos, nem os desafios mais duros, nem os descalabros dos outros me roubarão esta alegria enquanto eu puder beber da fonte inesgotável do legado de minha avó Regina.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Vida em Marte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 May 2020 11:57:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Caio]]></category>
		<category><![CDATA[David Bowie]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[Marte]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os dedos buscam escrever. O coração acordou mais manso e mesmo assim, triste. O oráculo diário sussurra: devagar e doce. Recordo sobressaltada que ontem foi quatro meses de sua partida. Meio sem querer, esbarro na música do Bowie que fala da vida cotidiana mas se chama Life on Mars. Descobri por acaso também. E Bowie [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os dedos buscam escrever.</p>
<p>O coração acordou mais manso e mesmo assim, triste.</p>
<p>O oráculo diário sussurra: devagar e doce.</p>
<p>Recordo sobressaltada que ontem foi quatro meses de sua partida. Meio sem querer, esbarro na música do Bowie que fala da vida cotidiana mas se chama Life on Mars. Descobri por acaso também.</p>
<p>E Bowie me lembra você. E me faz chorar toda vez. Parece que ele entende perfeitamente este momento doido que estou vivendo.</p>
<p>Lá fora, o mundo está de cabeça para baixo. Você não ia gostar de ver.</p>
<p>Eu nem sempre olho. Às vezes, é difícil demais. Mesmo para sua irmã otimista incurável.</p>
<p>Decido então olhar para dentro. E aqui dentro, com Bowie ao fundo, mora você, mora meu sonho de acordar o <em><strong><a href="http://voe.etc.br">Voe</a></strong></em>, mora meu amor infinito pelo Léo e a Olívia. Mora minha vontade de reinventar a vida aproveitando que está tudo fora do lugar mesmo.</p>
<p>Devagar e doce, as lágrimas rolam uma a uma. Nunca me importei em chorar. Que bom, porque este é um ano de muitas lágrimas.</p>
<p>Lá de longe, o cérebro me avisa que há trabalho por fazer. Devagar e doce. Devagar e cedo. Devagar, cedo.</p>
<p>Havia outros planos, mas talvez seja melhor não seguir os planos. Devagar e doce.</p>
<p>Decido tocar na ferida e <em><strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iYYRH4apXDo">ouvir a outra do Bowie que me lembra você</a></strong></em>. O fundo musical intergalático é uma homenagem aos astronautas que voaram para fora da Terra esta semana.  Talvez você esteja melhor aí no <em>outerspace</em> mesmo.</p>
<p>Mas não me queixo. Aqui há muita coisa boa para agradecer, a vida é tão de verdade do meu escritório nos fundos da casa.</p>
<p>Eu não preciso mais seguir as regras de sempre. Você sabe bem como eu gosto de inventar as minhas próprias regras. Então fico aqui, sem compromissos demais. Devagar e doce.</p>
<p>Tiro fotos de mim mesma, brincando de artista. O olho com fundo laranja mistura Marte, esperança, tristeza e a importância de estar desperta.<br />
Porque tudo está em movimento e o coração, às vezes, pesa. Mas não se despedaça.</p>
<p>Quem diria que você partir iria fortalecer meu coração ainda mais?</p>
<p>Meu amor por quem está aqui e a saudade-cicatriz do amor por quem já foi  são os únicos exercícios que tenho disciplina para encarar.</p>
<p>Suspiro fundo, o Bowie é bom mesmo.  Não é desespero, não é ansiedade. Não sei nem se é tristeza.</p>
<p>É mais uma suave melancolia, uma nostalgia do que está fora do alcance, uma curiosidade mansa sobre o que virá.</p>
<p>Esta semana foi de revoluções aqui dentro e lá fora. <em><strong><a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_George_Floyd"> Incêndios, revolta, mesas viradas</a></strong></em> sob o olhar implacável de Marte.</p>
<p>Marte, de novo, desta vez no viés da astrologia.</p>
<p>Subitamente, tudo se costura num fio de sentido: Bowie, Marte, você, meu pirata espacial Dr. Tranquilo, as lutas lá fora, as lutas aqui dentro. Devagar e doce.</p>
<p>&#8220;Ground Control&#8221;, o Bowie chama. &#8220;Can you hear me?&#8221;. Você pode me ouvir daí?</p>
<p>Diz que vai ficar tudo bem, tá?</p>
<p>&#8220;Cause there is nothing I can do&#8221;.</p>
<p>Por enquanto.</p>
<p>Devagar e doce, confio. Há de melhorar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O tempo é bom</title>
		<link>https://www.vivermaissimples.com/o-tempo-e-bom/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 May 2020 19:39:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[memórias felizes]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Caio]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[gratidão]]></category>
		<category><![CDATA[Léo]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Saudade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Leonardo, hoje você faz quinze anos. 2020 tem sido um ano bem único. Neste seu aniversário, te ofereço um presente bem meu. O olhar apreciativo sobre o que aperta e amassa nosso coração na esperança que seja cura de mãe para filho (ou seja, amor). Estamos em resguardo há mais de dois meses. Sei o [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Leonardo, hoje você faz quinze anos.<br />
2020 tem sido um ano bem único.<br />
Neste seu aniversário, te ofereço um presente bem meu. O olhar apreciativo sobre o que aperta e amassa nosso coração na esperança que seja cura de mãe para filho (ou seja, amor).</p>
<p>Estamos em resguardo há mais de dois meses. Sei o quanto te custa, meu geminiano de pés voadores e braços longos. Sei que a saudade dos amigos é grande, a vontade de ir para longe da barra da minha saia&#8230; Para ser autêntico, livre e leve, todas estas coisas que você busca e faz tão bem.<br />
Este resguardo é um bem que fazemos ao mundo, meu filho. Quando ficamos em casa, cuidamos de suas avós e seu avô. E dos avôs e avós de outras pessoas. Honramos o trabalho duro de profissionais da saúde, da limpeza, de pessoas que mantém os serviços mais essenciais. Damos uma lição sobre democracia e liberdade, que jamais devem estar contra o bem estar comum e devem se alicerçar na Arte e na Ciência para que haja beleza e evolução da Humanidade.</p>
<p>A vida não é justa, eu sei. Em janeiro você se despediu do tio Caio. Tão jovens. Ele e você.<br />
Apenas quinze anos e já se despediu também do avô e da bisavó. É duro.<br />
E por a vida não ser justa, é tão importante ter no mundo pessoas como você, coração de leão. Quando fazemos o bem, transformamos fel em mirra (fel é algo bem amargo e mirra é uma erva que purifica).<br />
Fazemos isso quando somos bons amigos de nossos amigos e quando respeitamos e cuidamos das pessoas, inclusive nossa irmã mais nova que nos tira do sério. Quando o fazemos, o mundo fica melhor e portanto a injustiça dói menos. Mas dói.<br />
E aí, é importante sempre cuidar da gente e de nossos sentimentos.<br />
Se estamos como raiva, olhar bem no olho da raiva e perguntar: por que você está aqui? O que preciso fazer para te aplacar?<br />
Se estamos tristes, olhar no coração da tristeza e falar:  tudo bem você estar aqui. Eu estou aqui também.   Tenho espaço para você dentro de mim.<br />
Se estamos felizes, prestar atenção no que nos faz felizes, para sempre cuidar do fogo que alimenta esta alegria como o mais precioso tesouro.<br />
Eu faço o meu melhor para ser uma boa mãe. Comecei escolhendo um bom pai para você e me deixando ser escolhida por ele também. Faço comidas gostosas, dou as broncas necessárias e, muita vezes, as desnecessárias. Aí eu tento olhar para a minha imperfeição como mãe para me melhorar, sim. Mas sobretudo para te contar como a gente é imperfeita mesma e é impossível impedir um tropeço ou outro. Porém é possível tentar ser melhor, pedir perdão e dar risada de si mesma.<br />
15 anos e vejo você buscar suas asas, construir a pessoa que você é. Espero sempre te dar espaço para isso, mas mesmo quando parecer apertado, eu sei que você tem a potência para sair e descobrir o mundo. Eu lembro bem do dia em que você nasceu e foi assim mesmo.<br />
Eu queria te ensinar tudo que eu sei e não sei, eu queria te proteger de todo o mal, eu queria que a sua vida fosse mais linda do que a melhor história do mundo.<br />
Mas meus superpoderes de mãe, são limitados. Então eu te ofereço meu colo, minha humildade, minha experiência, minha crepioca de manhã, as partidas de buraco. E sei que de vez em quando escapa um grito, então eu te ofereço minha vulnerabilidade e consciência de que por mais que eu busque acertar, erro feio e com frequência.<br />
Pode faltar tudo, mas amor por você nunca. Porque eu não posso te prometer um monte de coisas e você agora já sabe que a vida é incerta e tudo pode virar de cabeça para baixo. E você ter que usar máscara ainda por cima. De cabeça para baixo e tudo.<br />
Mas amor sempre, grande e fundo, isso posso te prometer.<br />
Quando sua irmã estava para chegar, eu li e reli o livrinho que dizia que meu amor não era como bolo, que a gente parte em pedaços e um dia acaba.<br />
Meu amor se multiplica.<br />
A cada dia que vejo você esticar mais um centímetro e a voz engrossar mais um tom. A cada dia em que você sorri, chora ou fica bravo. A cada dia.Todo dia.<br />
Hoje vai ter bolo fondant da Táta, brigadeiro, beijo e abraço.<br />
A vida é assim. Brindamos com o que temos para hoje.<br />
Sou grata por ter você. Este milagre que saiu da minha barriga e hoje quase não cabe no colchão. Mas que sempre será meu primeiro filho, minha maior estreia, um bem que eu trouxe para o mundo.<br />
A vida pode ser injusta muitas vezes. Mas nem me importo. Numa vida onde há você, vale muito a pena viver.<br />
E eu vivo assim, incansavelmente tentando deixar este mesmo mundo um pouco melhor para você.(e sua irmã, sem ciúmes, ok?).</p>
<p>Te amo, Léo.<br />
Feliz Aniversário.</p>
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		<title>Uma vela na escuridão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2020 20:30:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[propósito]]></category>
		<category><![CDATA[Adriana Ferreira]]></category>
		<category><![CDATA[clarissa pinkola estes]]></category>
		<category><![CDATA[Corpo Inteiro]]></category>
		<category><![CDATA[gratidão]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[missão]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres que correm com os lobos]]></category>
		<category><![CDATA[Regina Rapacci]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[separação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há algum tempo já me dei conta: 2020 é o início de uma nova etapa no Viver Mais Simples. Lá atrás, era sobre simplificar, viver com propósito, respirar. Foi amadurecendo e se ampliando.  Cinco anos. Oito. E agora, dez anos. Completos em dezembro passado. No começo eu escrevia sobre meu dia a dia. Em seguida, sobre o [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Há algum tempo já me dei conta: 2020 é o início de uma nova etapa no <em><strong><a href="http://www.vivermaissimples.com/oito-passos-para-viver-mais-simples/">Viver Mais Simples</a></strong></em>.</p>
<p>Lá atrás, era sobre simplificar, viver com propósito, respirar.</p>
<p>Foi amadurecendo e se ampliando.  <a href="http://www.vivermaissimples.com/cinco-anos-de-viver-mais-simples/"><em><strong>Cinco a</strong><strong>nos</strong></em></a>. <em><strong><a href="http://www.vivermaissimples.com/oito-anos-de-viver-mais-simples/">Oito</a></strong></em>.</p>
<p>E agora, dez anos. Completos em dezembro passado.</p>
<p>No começo eu escrevia sobre <a href="http://www.vivermaissimples.com/obrigada-2010/"><em><strong>meu dia a</strong></em><em><strong> dia</strong></em>.</a> Em seguida, sobre <a href="http://www.vivermaissimples.com/o-melhor-do-viver-mais-simples-2015/"><em><strong>o novo trabalho e a jornada de autoconhecimento</strong></em></a>. Mais recentemente, para digerir a <a href="http://www.vivermaissimples.com/faz-um-ano/"><strong><em>perda de meu pai</em></strong></a>, <a href="http://www.vivermaissimples.com/balanco-2016-a-colheita/"><em><strong>o fim de meu casamento</strong></em></a>, a <a href="http://www.vivermaissimples.com/cada-dia-ao-seu-lado/"><em><strong>perda de meu irmão</strong></em></a>.</p>
<p>E agora, para dar sentido a tudo isso que acontece e atordoa, mas também expande, aprofunda e amadurece.</p>
<p>Para recuperar o fôlego, fui buscar uma das primeiras práticas do Viver Mais Simples. O <a href="http://www.vivermaissimples.com/por-que-nao/"><em><strong>Por que não</strong></em>?</a></p>
<p>Assim encontrei <a href="https://www.reginarapacci.com/"><strong><em>Regina Rapacci</em></strong></a> e seu belo projeto <em><strong><a href="https://youtu.be/DlnX3BKwxyg">Janelas de Conversa</a></strong></em>. E durante algumas horas e em companhia de mulheres valentes, mergulhamos no conto Barba Azul, do livro <a href="https://www.amazon.com.br/Mulheres-que-Correm-com-Lobos/dp/8532529445"><em><strong>Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés</strong></em></a>.</p>
<p>Esta história já esteve comigo outras vezes. <a href="http://www.vivermaissimples.com/barba-azul/"><em><strong>Num grupo de Estudo</strong></em></a>s, onde aprendi muito sobre as vozes de dentro e fora que tentam vencer nossa intuição. No <em><strong><a href="http://quaseoito.com.br/produto/barba-azul/">livro da Eliza Morenno, editado pela Quase Oito e ilustrado pela Lina, </a></strong></em>cuja beleza pude honrar no prefácio.</p>
<p>E agora.</p>
<p>Cada vez que lemos um conto (e certas histórias são fundamentais para mapear nossas ferramentas mais poderosas), nosso olhar e coração se acendem com algo.</p>
<p>Desta vez, com duas passagens:</p>
<p>&#8220;Estava escuro, logo acenderam um vela&#8221; e  a parte onde a protagonista aguarda &#8220;os irmãos&#8221; que venceriam Barba Azul.</p>
<p>Fiquei com estes dois recortes, de tudo (e é muito, quem conhece a história, sabe).</p>
<p>Saí do encontro cansada e emocionada. Sim, são tempos escuros. Apenas tateamos, desajeitadamente.</p>
<p>Mas a força de uma vela é muita. E a força de cada vela somada, transformadora.</p>
<p>Lembrei-me de uma de minhas clientes maravilhosas, Mônica Caram. Ela faz velas. A que ilustra este texto foi um presente dela.</p>
<p>A beleza e calma que emanam de uma vela tem a potência de mil sóis e a suavidade de um vaga-lume.</p>
<p>Meu propósito vem se renovando ao longo dos anos. No começo, &#8220;Ajudar as pessoas a frutificarem, sendo felizes&#8221;. Depois, &#8220;Despertar com palavras o florescer do outro&#8221;. Mais recentemente, <strong><em><a href="http://voe.etc.br/#oque">ajudar cada um a espraiar suas asas</a>. </em> </strong>E agora, também e ainda em lapidação &#8220;Cuidar para que o mundo tenha mais luz&#8221;. Ao compartilhar a  luz de minha própria vela.  Ao contribuir para cada um encontrar e cuidar se sua própria vela. A centelha que todos temos. Para que brilhemos e iluminemos o mundo. E cumpramo-nos como seres humanos.</p>
<p>Lá no encontro da Regina, me comovi de verdade com a potência desta luz emanada quando nos reunimos e confiamos (que é fiar juntas).</p>
<p>Mas é preciso coragem. E aí invoco &#8220;os irmãos&#8221;. Nossa persistência. Nossa disciplina. Nossa força.  Eles virão, se acreditarmos. Eles virão, se os chamarmos.</p>
<p>Vela em punho, invoquemos dentro de nós. E fora de nós. Cada irmão.</p>
<p>E nestes tempos de incerteza, perdas e sofrimento, eu te ofereço minha vela. Na esperança que este fogo possa te ajudar a acender a sua.</p>
<p>E então serão muitas.</p>
<p>E triunfaremos sobre este tempo de sombras.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Nas beiradas da vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Mar 2020 21:02:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Luto]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vida, vida, vida. Palavra que pulsa em mim toda vez que sussurro seu nome. Até lembrar, dolorosamente, que você está morto. Um susto por que passo repetidamente, desde o final de janeiro. É como um pique-esconde desconcertante. Você me espreita nas esquinas do dia. Um e-mail sobre o inventário. Uma foto no celular. Uma mensagem [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Vida, vida, vida.<br />
Palavra que pulsa em mim toda vez que sussurro seu nome.</p>
<p>Até lembrar, dolorosamente, que você está morto.<br />
Um susto por que passo repetidamente, desde o final de janeiro.<br />
É como um pique-esconde desconcertante. Você me espreita nas esquinas do dia. Um e-mail sobre o inventário.  Uma foto no celular.  Uma mensagem amiga. As palavras &#8220;meus sentimentos&#8221; causam sobressalto.<br />
É como seu eu andasse distraída e alguém ou algo me recordasse: ele não está mais aqui.<br />
Mas como, não está?<br />
Se todo o tempo eu penso em você. E sinto saudades intermináveis.<br />
Parece até que o amor se quadruplicou agora que não posso mais te abraçar.<br />
Então eu sonho com você pedindo para eu dar meu gato para a outra irmã. Ou reconheço você em cada jovem que cruza meu caminho. E falo de você a cada trabalho e para cada nova pessoa que conheço.  E esbarro no rastro imenso que você deixou: seus trabalhos, seus amigos, suas mensagens.<br />
Sua voz dizendo &#8220;E aí, Lê&#8221; me persegue incansável. E eu chamo meu filho pelo seu nome.<br />
E choro, como choro.  E te peço perdão por chorar, pois sei que embora injusto, é preciso dizer adeus.<br />
Escuto as palavras de condolências automaticamente, até aquela que realmente  toca meu coração e me faz suspirar.<br />
E choro rio agradeço questiono aceito recuso e choro<br />
Cada dia<br />
Todo dia<br />
Quando papai morreu, era como se eu caminhasse na água. O ar era pesado e espesso.<br />
Com você, parece que carrego uma pedra enorme amarrada no meu peito.<br />
Novamente, a sensação de se difícil avançar. Só que agora, cada passo esgarça um pouco meu coração.<br />
Aos poucos retomo a rotina. O trabalho, as crianças, as miudezas.<br />
Mas a toda hora me assusto com sua ausência. E sinto-me desorganizada.<br />
Já se passaram dois meses, o ano já está no mês de seu aniversário. O dia 26 foi muito difícil.<br />
Lá fora, todos falam de COVID-19. Eu fico em casa, observo ora como arquibancada, ora sem saber como estender a mão, outras, estendendo demais.<br />
O resguardo foi de certa forma um alívio para dar tempo e espaço para tanta dor. Mas me sinto desorientada.  Não podia imaginar o quanto sua existência era sol e estrelas me guiando dia e noite.<br />
Tateio desajeitada por bússolas. E ainda tropeço no labirinto do viver sem você. Mesmo grata por você ter partido antes do vírus se espalhar, levando quem tem a imunidade baixa. Como você tinha.<br />
Ás vezes, parece que está tudo bem e é só um dia normal. Até que o caleidoscópio da tristeza gira e a nova imagem é uma agulhada profunda.<br />
Outro dia, vi um a mensagem que dizia: nunca superarmos a perda de alguém, apenas seguimos e ao seguir, vivemos sem ela.<br />
Eu nunca vou superar a sua ausência. Com sorte, pé ante pé, vou viver sem você.<br />
Só não sei quando ou onde.<br />
Agora, hoje, você é tudo o que eu não tenho, tudo o que eu não posso, tudo o que eu perdi.<br />
E este vazio dói para além das palavras, me roubando a coragem e a alegria.<br />
Procuro em vão por palavras para fechar o texto.<br />
Você deixou esta porta aberta para todo o sempre.<br />
Me despeço então assim mesmo, sabendo que a qualquer momento você surgirá novamente. Nas esquinas da vida, nas beiradas do dia, pulsando eternamente vivo dentro de mim.</p>
<p>30 de março. Dois meses.</p>
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		<title>Nada maior do que o agora</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Feb 2020 12:51:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Caio]]></category>
		<category><![CDATA[gratidão]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>não há não há dor saudade gratidão amor MAIOR do que o que sinto agora Reaprendo a andar, a viver, a ter esperança Cambaleando tanto quanto você há uns 30 anos Memórias revelam-se num fluxo interminável Acalmando e aguçando as pontadas em meu coração Tudo faz sentido E nada faz Vivo entre Quentes e frios [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>não há<br />
não há</p>
<p>dor<br />
saudade<br />
gratidão<br />
amor<br />
			MAIOR</p>
<p>do que o que sinto agora</p>
<p>Reaprendo a andar, a viver, a ter esperança<br />
Cambaleando tanto quanto você há uns 30 anos<br />
Memórias revelam-se num fluxo interminável<br />
Acalmando e aguçando as pontadas em meu coração</p>
<p>Tudo faz sentido<br />
E nada faz</p>
<p>Vivo entre<br />
Quentes e frios<br />
Secos e molhados<br />
Duros e Macios</p>
<p>Sua partida me abriu mil portais para dentro e para fora<br />
Por vezes me perco neste caleidoscópio<br />
de sentimentos e aprendizados<br />
Seu sorriso me traz de volta<br />
Sempre<br />
Bússola eterna estampada em meu coração</p>
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		<title>Nosso tempo é hoje. Nosso tempo é sempre.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Feb 2020 15:19:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Caio]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[Saudade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje faz uma semana que você partiu na sua grande viagem. Eu estava por perto, confiando que a jornada será boa, rumo a um horizonte de paz bem dourada. De lá para cá, a vida volta aos trilhos devagar. Tão devagar que volta e meia esqueço que você não está mais aqui. Às vezes até [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje faz uma semana que você partiu na sua grande viagem.</p>
<p>Eu estava por perto, confiando que a jornada será boa, rumo a um horizonte de paz bem dourada.</p>
<p>De lá para cá, a vida volta aos trilhos devagar. Tão devagar que volta e meia esqueço que você não está mais aqui. Às vezes até parece que eu vou esbarrar com você e seu indefectível &#8220;E aí, Lê?&#8221;.</p>
<p>Às vezes parece que eu nunca vou chegar no final deste poço de lágrimas de saudades. Saudade que pela primeira vez não jorrou num fluxo contínuo, mas tem sido como a chuva intermitente deste início de fevereiro.</p>
<p>Lá atrás, nas intenções do ano, eu escrevi: &#8220;Passar mais tempo com Caio&#8221;.  Agora, aprendo que passei o tempo possível e foi o que era para ser. Suficiente e ao mesmo tempo, não. Nunca.</p>
<p>Ainda me lembro de sua voz e torço para haver algum áudio seu por aí, porque sei que a voz é algo que o tempo apaga.  Mas a única coisa talvez.</p>
<p>Você está mais vívido do que nunca. Eu vejo seu sorriso a toda hora, suas mãos longas e desajeitadas que criaram tanta beleza. Eu recordo o gosto com que comeu o último alfajor. O sorriso na pele esquálida, na última vez que nos vimos.</p>
<p>Eu testemunho os muitos milagres de amor e doçura que se multiplicam entre nós, que ficamos do lado de cá.</p>
<p>Eu rio desajeitada do tempo que perdi elocubrando preocupações e expectativas que se tornaram cinzas junto com você.</p>
<p>Prometo-me um compromisso com o presente e o agora. Pois o futuro é tão incerto e construído de momentos bem-vividos no hoje.</p>
<p>Eu celebro sua vida ao esbarrar com você por aí. Nas nossas marcas, nas fotografias, nas mensagens carinhosas de seus amigos, na visão do pátio da escola onde fiz sua adaptação, há 28 anos.</p>
<p>Eu sinto sua falta, eu me culpo e em seguida me perdoo. Foi tudo muito bom, mesmo o que foi difícil.</p>
<p>E o que foi difícil, agora não importa tanto.</p>
<p>Eu tento escutar meu coração e ser fiel a mim mesma, porque é algo que nos une. Para sempre.</p>
<p>Tudo nosso agora é para sempre.</p>
<p>Não há mais &#8220;se&#8221; ou &#8220;talvez&#8221;. Apenas infinito.</p>
<p>Infinito amor. Infinita saudade. Infinita gratidão por ter te conhecido.</p>
<p>Nosso tempo é agora. E nosso tempo, agora, é para sempre.</p>
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		<title>Prateando</title>
		<link>https://www.vivermaissimples.com/prateando/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Aug 2018 12:41:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[simplicidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando me casei, há mais de vinte anos, estava determinada a não ter nenhum item de prata. Eu desprezava o trabalho que arear as peças me daria e fui uma orgulhosa dona de casa com armários repletos de inox, madeira e louça. Ano passado, meu pai morreu. E das muitas heranças afetivas, ficaram os três [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando me casei, há mais de vinte anos, estava determinada a não ter nenhum item de prata.</p>
<p>Eu desprezava o trabalho que arear as peças me daria e fui uma orgulhosa dona de casa com armários repletos de inox, madeira e louça.</p>
<p>Ano passado, meu pai morreu. E das muitas heranças afetivas, ficaram os três únicos itens que minha madrasta concedeu levar da casa antiga dele para o lar do novo casal:</p>
<p>Uma bandeja de prata, um conjunto de xícaras de louça e um aparelho de jantar.</p>
<p>Um dos legados de meu pai é o cultivo a relações harmoniosas na família. Por isto, não se espante em saber que minha mãe e madrasta comemoraram juntas, pela segunda, vez o dia das mães.  Num momento a sós, minha madrasta se lembrou dos três itens e disse para minha mãe que ela os deveria levar consigo, eram seus por direito.</p>
<p>Minha mãe  retrucou: &#8220;três presentes, três filhos. Vamos sortear?&#8221;</p>
<p>E assim recebi, um pouco contrariada, a bandeja de prata ofertada por Dedê, um dos padrinhos do casamento de meus pais.</p>
<p>A peça é linda, porém volumosa.  Logo encontrou moradia numa estante na sala, de onde me observava diariamente.</p>
<p>Estava encardida e oxidada, após tantos anos sem uso.</p>
<p>E aí começou a magia.</p>
<p>Primeiro fui consultar o Google (&#8220;como arear  prata?&#8221;), já que meu exemplar de <em><strong><a href="https://www.saraiva.com.br/sebastiana-quebra-galho-424001.html">Sebastiana Quebra-Galho</a></strong></em> foi doado há muito tempo&#8230;</p>
<p>Eu sabia que o ideal era um determinado produto tradicional, que eu temia estar fora do mercado (hoje sei que foi comprado por uma multinacional e tenho uma lata de letras miúdas na despensa&#8230;).</p>
<p>Mas até encontrá-lo, experimentei com fórmulas caseiras, até chegar na pasta de dente.  Funcionou. A bandeja transformada e eu, junto.</p>
<p>Pois não é que este ritual me aproximou de meu pai?</p>
<p>Primeiro, um sentimento de estar honrando um dos poucos itens de valor afetivo para ele, que não era nada acumulador (exceto livros&#8230;).  Arear a bandeja tornou-se um carinho.</p>
<p>Depois, a reflexão sobre a ciência por trás da oxidação da prata. Tudo que é ciência natural me aproxima do meu pai, um inventor apaixonado que ficava irritado quando eu afirmava que algo não era natural:  &#8220;o homem é parte da Natureza, portanto suas obras são também naturais&#8221;.</p>
<p>Hoje foi novamente dia de arear a bandeja.  Agora equipada com o tal produto mais efetivo, pude me demorar no acabamento.  O brilho da prata recordando o brilho dos olhos do meu pai, de seu sorriso um pouco raro, mas sempre especial.</p>
<p>Espero um amigo, a bandeja ocupada por xícaras, copo, água e café. E me lembro que aprendi a fazer café para meu pai. E me lembro do &#8220;super-copão&#8221; de água com gelo que era minha especialidade e ele adorava.</p>
<p>As lágrimas, também prateadas, escorrem livremente. Pratear. Prantear. Tudo junto e misturado.</p>
<p>A bandeja tornou-se um tesouro (eu que também não sou acumuladora. Nem de livros).</p>
<p>Arear a prata tornou-se um ritual de saudade.</p>
<p>Luto é uma travessia sem ponto de chegada. Aconchego-me nestas pequenas experiências e meu pai fica aqui dentro, bem quentinho.</p>
<p>Todo prata prateado.</p>
<p>&nbsp;</p>
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