Um corpo Inteiro, Cinco Estações
Conheci você, Adriana, em pleno verão. O corpo ardia, a alma incendiava. Meu fogo devorava mundos e eu me queimava junto.
Sentia sede, a pele curtida.
Você me enxergou, ofereceu-me água. Foi o oásis inesperado, o convite imperdível para eu me redescobrir.
Com você, gestei e pari novos mundos.
Vieram outonos.
Você, sempre ao meu lado, na transição entre tantas vidas, no desfecho de um longo casamento. “Guarde um pouco para si”. E assim me iniciei na economia somática, na feitura de fronteiras, no cultivo da força desta linda serpente que me habita.
A pele velha caiu, de tanto roçar meu corpo em transformação pelas pedras do Matutu, ano após ano. Deixei para trás o que era seco, o que era desnecessário. Tateando uma existência mais elegante, mais precisa, mais preciosa.
Ainda viria o inverno. A morte de meu pai e meu irmão. O último casamento, tão dolorido. Minha alma gelada se aconchegou em nosso trabalho cada vez mais disciplinado e consistente. Resistimos lado a lado, isoladas geograficamente e, todavia, cada vez mais íntimas.
Sobrevivi. E você me esperava.
Finalmente, a primavera. Um novo amor. Filhos florescentes. Um trabalho fértil. Mais um capítulo na carreira: Psicóloga!
Dancei, cantei e celebrei ao redor da fogueira com você. Seus olhos amorosos me abençoaram. Banhei-me neste bálsamo de seus saberes, de nossos encontros.
Agora, amada amiga, você me ensina uma nova estação. A estação ainda não criada, do recomeço, do renascimento. Do teu renascimento.
Testemunhei sua travessia do fogo. Sua despedida de velhas carcaças. Teu corpo sustentado por nosso amor, a ciência dos homens, o cuidado de Didi e, sobretudo, sua vida inteira dedicada a formar um corpo autêntico, resiliente, pura arte em forma de redes neurais, vísceras e músculos (ah, o coração!).
Te vi emergir do inverno gelado das UTIs hospitalares. Te vejo reensinar o corpo a caminhar, para então bailarmos juntas na grama do Anahata.
Maravilho-me com tua coragem e tua verdade: fazer de si mesma um exemplo vivo da potência de um corpo inteiro. Teu Corpo Inteiro.
Muitas estações viveremos juntas. Reinventando-nos, entrelaçadas nesta delicada renda de afetos, aprendizados e mistério.
Te reverencio, te abraço, te agradeço. Bem-vinda de volta, minha querida companheira de sonhos!
Leticia
6 de novembro de 2025
