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	<title>Arquivos coronavirus - Viver Mais Simples</title>
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		<title>O tempo é bom</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 May 2020 19:39:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[memórias felizes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Leonardo, hoje você faz quinze anos. 2020 tem sido um ano bem único. Neste seu aniversário, te ofereço um presente bem meu. O olhar apreciativo sobre o que aperta e amassa nosso coração na esperança que seja cura de mãe para filho (ou seja, amor). Estamos em resguardo há mais de dois meses. Sei o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Leonardo, hoje você faz quinze anos.<br />
2020 tem sido um ano bem único.<br />
Neste seu aniversário, te ofereço um presente bem meu. O olhar apreciativo sobre o que aperta e amassa nosso coração na esperança que seja cura de mãe para filho (ou seja, amor).</p>
<p>Estamos em resguardo há mais de dois meses. Sei o quanto te custa, meu geminiano de pés voadores e braços longos. Sei que a saudade dos amigos é grande, a vontade de ir para longe da barra da minha saia&#8230; Para ser autêntico, livre e leve, todas estas coisas que você busca e faz tão bem.<br />
Este resguardo é um bem que fazemos ao mundo, meu filho. Quando ficamos em casa, cuidamos de suas avós e seu avô. E dos avôs e avós de outras pessoas. Honramos o trabalho duro de profissionais da saúde, da limpeza, de pessoas que mantém os serviços mais essenciais. Damos uma lição sobre democracia e liberdade, que jamais devem estar contra o bem estar comum e devem se alicerçar na Arte e na Ciência para que haja beleza e evolução da Humanidade.</p>
<p>A vida não é justa, eu sei. Em janeiro você se despediu do tio Caio. Tão jovens. Ele e você.<br />
Apenas quinze anos e já se despediu também do avô e da bisavó. É duro.<br />
E por a vida não ser justa, é tão importante ter no mundo pessoas como você, coração de leão. Quando fazemos o bem, transformamos fel em mirra (fel é algo bem amargo e mirra é uma erva que purifica).<br />
Fazemos isso quando somos bons amigos de nossos amigos e quando respeitamos e cuidamos das pessoas, inclusive nossa irmã mais nova que nos tira do sério. Quando o fazemos, o mundo fica melhor e portanto a injustiça dói menos. Mas dói.<br />
E aí, é importante sempre cuidar da gente e de nossos sentimentos.<br />
Se estamos como raiva, olhar bem no olho da raiva e perguntar: por que você está aqui? O que preciso fazer para te aplacar?<br />
Se estamos tristes, olhar no coração da tristeza e falar:  tudo bem você estar aqui. Eu estou aqui também.   Tenho espaço para você dentro de mim.<br />
Se estamos felizes, prestar atenção no que nos faz felizes, para sempre cuidar do fogo que alimenta esta alegria como o mais precioso tesouro.<br />
Eu faço o meu melhor para ser uma boa mãe. Comecei escolhendo um bom pai para você e me deixando ser escolhida por ele também. Faço comidas gostosas, dou as broncas necessárias e, muita vezes, as desnecessárias. Aí eu tento olhar para a minha imperfeição como mãe para me melhorar, sim. Mas sobretudo para te contar como a gente é imperfeita mesma e é impossível impedir um tropeço ou outro. Porém é possível tentar ser melhor, pedir perdão e dar risada de si mesma.<br />
15 anos e vejo você buscar suas asas, construir a pessoa que você é. Espero sempre te dar espaço para isso, mas mesmo quando parecer apertado, eu sei que você tem a potência para sair e descobrir o mundo. Eu lembro bem do dia em que você nasceu e foi assim mesmo.<br />
Eu queria te ensinar tudo que eu sei e não sei, eu queria te proteger de todo o mal, eu queria que a sua vida fosse mais linda do que a melhor história do mundo.<br />
Mas meus superpoderes de mãe, são limitados. Então eu te ofereço meu colo, minha humildade, minha experiência, minha crepioca de manhã, as partidas de buraco. E sei que de vez em quando escapa um grito, então eu te ofereço minha vulnerabilidade e consciência de que por mais que eu busque acertar, erro feio e com frequência.<br />
Pode faltar tudo, mas amor por você nunca. Porque eu não posso te prometer um monte de coisas e você agora já sabe que a vida é incerta e tudo pode virar de cabeça para baixo. E você ter que usar máscara ainda por cima. De cabeça para baixo e tudo.<br />
Mas amor sempre, grande e fundo, isso posso te prometer.<br />
Quando sua irmã estava para chegar, eu li e reli o livrinho que dizia que meu amor não era como bolo, que a gente parte em pedaços e um dia acaba.<br />
Meu amor se multiplica.<br />
A cada dia que vejo você esticar mais um centímetro e a voz engrossar mais um tom. A cada dia em que você sorri, chora ou fica bravo. A cada dia.Todo dia.<br />
Hoje vai ter bolo fondant da Táta, brigadeiro, beijo e abraço.<br />
A vida é assim. Brindamos com o que temos para hoje.<br />
Sou grata por ter você. Este milagre que saiu da minha barriga e hoje quase não cabe no colchão. Mas que sempre será meu primeiro filho, minha maior estreia, um bem que eu trouxe para o mundo.<br />
A vida pode ser injusta muitas vezes. Mas nem me importo. Numa vida onde há você, vale muito a pena viver.<br />
E eu vivo assim, incansavelmente tentando deixar este mesmo mundo um pouco melhor para você.(e sua irmã, sem ciúmes, ok?).</p>
<p>Te amo, Léo.<br />
Feliz Aniversário.</p>
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		<title>Cada um no seu ritmo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 May 2020 15:49:03 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma nova semana em quarentena. Uma de muitas que virão, aparentemente. O coração está pesado com as notícias e desgovernos. Com a impotência de ver pobres e idosos e profissionais da saúde na linha de frente desta guerra. Triste de ver o desconsolo no olhar dos filhos. E do marido. O preço são noites insones [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma nova semana em quarentena. Uma de muitas que virão, aparentemente.</p>
<p>O coração está pesado com as notícias e desgovernos. Com a impotência de ver pobres e idosos e profissionais da saúde na linha de frente desta guerra. Triste de ver o desconsolo no olhar dos filhos. E do marido.</p>
<p>O preço são noites insones e muita dor de cabeça.</p>
<p>Mas foi bom reencontrar o meu ritmo.</p>
<p>A pandemia foi o tapa na cara. Na minha cara.</p>
<p>Labuta demais. Gastos demais. Automático demais.</p>
<p>Foi um freio de arrumação. Daqueles que chacoalha a coluna vertebral que chega a doer.</p>
<p>A dor de perder meu irmão era atropelada pelo trabalho sem fim, viagens sem fim, tarefas sem fim.</p>
<p>Eu não prestava atenção em relações importantes. E desperdiçava tempo em relações estéreis.</p>
<p>Eu estendia meu braço para o lado errado.</p>
<p>Os dias passavam e eu não estava atenta o suficiente aos meus filhos. E eles, não estavam passando tempo suficiente comigo.</p>
<p>Quando algo apertava com o marido, uma viagem conveniente dava um <em>reset</em> e as diferenças iam para baixo do tapete.</p>
<p>Agora, o tempo é outro.</p>
<p>Mais lento: dois meses e eu vivi intensamente cada dia. Conversas significativas, estudo, autoconhecimento, muito amor.</p>
<p>Mais rápido: as horas escoam entre estudo, trabalho, cozinha, insônia.</p>
<p>Não dou conta de tudo: há algumas amizades precisando de rega. O corpo implora por alguma atividade, mas a preguiça ainda impera.  Há planos ainda na prateleira.</p>
<p>Há ainda planos na prateleira: no (des)conforto da gosma de meu casulo, vejo as asas se formando. Novos sonhos, de melhor tamanho.</p>
<p>E sei que para muitos a situação é outra. Mas estou aprendendo a não pedir desculpas por ser eu mesma. Este texto não é uma contação de vantagens. É um registro.</p>
<p>Para eu não esquecer.</p>
<p>Não esquecer de que a vida segue lá fora, injusta e bela. Quase nada posso fazer sobre quase tudo.</p>
<p>Mas o pouco que posso, faz muito sentido. E este sentido é o farol da minha travessia.</p>
<p>Sinto muito pelas vidas ceifadas. Pelos trabalhos perdidos. Pelas pedras pontudas enfrentadas por quem não tem meus privilégios.</p>
<p>Contudo, agradeço por ter redescoberto meu próprio ritmo. Da solidão do meu escritório improvisado, me dou colo e me dou asas.</p>
<p>E tudo há de passar, mais uma vez.</p>
<p>E quando passar, voaremos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Imagem: verbete do livro Desdicionário do projeto homônimo de Daniela Belmiro.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Sobre bordas e transbordos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2020 13:36:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[daniela belmiro]]></category>
		<category><![CDATA[isolamento]]></category>
		<category><![CDATA[isolamento social]]></category>
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		<category><![CDATA[transbordando por aqui]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acordo com um dia mais livre do que o habitual. Tenho sono: as noites têm sido conturbadas. No entanto, já aprendi que tentar adormecer de novo não descansa meu corpo, então começo o dia com vontade de escrever. E o tema são bordas. Fronteiras que mantém a vida possível em tempos imprevistos e surreais. As [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Acordo com um dia mais livre do que o habitual.<br />
Tenho sono: as noites têm sido conturbadas. No entanto, já aprendi que tentar adormecer de novo não descansa meu corpo, então começo o dia com vontade de escrever.<br />
E o tema são bordas. Fronteiras que mantém a vida possível em tempos imprevistos e surreais.<br />
As rotinas são bordas que contém os mares turbulentos que me habitam. Especialmente durante o isolamento social e à luz das notícias preocupantes de todos os dias.<br />
O esforço é modular estas bordas. A permeabilidade, a rigidez, a densidade.<br />
O que deixar entrar?<br />
Conversas amigas curam. Encontros e reencontros, gestos de amor e amizade. Relatos solidários, dicas de séries, trocas de sentimentos, partilha de desafios comuns. Lembrar que somos humanos e não estamos sós.</p>
<p>Já as notícias tem sabor agridoce. Claro, é preciso conhecer o que é seguro e o que é permitido. É útil acompanhar a ciência e também questionar a ciência. Tudo são certezas provisórias e é crucial ler com espírito crítico. Informações ajudam neste sentido (o difícil é eleger as fontes).<br />
Do outro lado, os conflitos de ponto de vista, a dor e raiva causada pela desorientação (ou mau caráter) de nossos governantes, as hesitações e agendas ocultas que nos tolhem de uma direção firme rumo a sair desta crise. Recortes que alimentam a desesperança e aumentam a ansiedade.<br />
Agridoce. Ainda não consigo modular a quantidade a ser ingerida.</p>
<p>Trabalho também é borda. Mas a <strong><em><a href="http://www.vivermaissimples.com/para-compreender-capricornio/">capricorniana </a></em></strong>precisa ser vigiada. Percebo abusos no tempo de estar encerrada no escritório improvisado no quarto de empregada.<br />
Mas o que eu faço, além de ocupar os dias, me dá um senso de propósito. Poder contribuir, mesmo que um pouco, faz valer a pena e reduz o senso de impotência.</p>
<p>Amar, este é sem contra-indicação. Que os limites estão postos. Juntinhos, só com o marido e filhos. Os outros tipos de amor são por telefone ou computador. E para alguém desmedida em estender o braço, estas novas bordas são bem-vindas. Mesmo com tanta saudade de abraços.</p>
<p>Transbordo.<br />
Choro mais do que o habitual. Roo mais as unhas. Como mais chocolate.<br />
Converso mais e longamente com cada pessoa amiga. Presto mais atenção em cada filho. Tudo me emociona.<br />
Escrevo mais neste <strong><em><a href="http://www.vivermaissimples.com/sobre-o-que-me-faz-feliz-e-tambem-saudade/">blog</a></em></strong>.<br />
Respondo longamente aos pedidos dos amigos: uma opinião sobre o vídeo da<em><strong><a href="https://www.natura.com.br/consultoria/samaramar"> consultora de cosméticos</a></strong></em>. Um olhar sobre o texto da amiga terapeuta.<br />
Tenho tempo e saudades. Por isso me alongo.<br />
Transbordo novidades também.<br />
Aprendi a ouvir podcast. Inclusive este texto dialoga com o <em><strong><a href="https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy8xMWJhNWQxOC9wb2RjYXN0L3Jzcw/episode/ZTBiNjUzOTctNzRhMC00YTc2LTlhZDgtZjlhYjJhYWU2YzQw?hl=pt-BR&amp;ved=2ahUKEwijjKGh9bDpAhU5HbkGHaWKDOsQieUEegQICRAE&amp;ep=6">podcast da amiga</a></strong></em>.<br />
Aprendi a amar áudios no WhatsApp. A voz das pessoas é um tesouro.<br />
Aprendi novas receitas: leite de amêndoas, leite de côco, bolos, moqueca de forno.<br />
E tenho fome de aprender: estudo tarô, facilitação on-line.<br />
Também crio espaço para ser <strong><em><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Clarissa_Pinkola_Est%C3%A9s">mulher selvagem</a>.</em></strong><br />
Leio mais. Costurei as peças que pediam linha e agulha. Renovei o guarda-roupa de peças íntimas (<strong><em><a href="https://www.verve.com.br/?gclid=EAIaIQobChMIl4mQg_Gw6QIVhwmRCh2qdwaWEAAYASAAEgKzavD_BwE">na loja da outra amiga</a>)</em></strong>. Pintei as unhas do pé. Faço colagens. Cozinho como as avós e as mães. Arrumo a casa de tempos em tempos.<br />
E escrevo escrevo escrevo.<br />
O corpo, estou ainda aprendendo a cuidar. Reluto com as aulas on-line de <em><strong><a href="https://www.youtube.com/watch?reload=9&amp;v=Ic7gksAf6U8">Eutonia </a></strong></em>e <em><strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9q3hE0n8XPc&amp;feature=youtu.be">Pilates</a></strong></em>. Quase morri sem fôlego ao jogar uma partida de badminton com o filho, na quadra improvisada na sala. Mas vamos tentando de outros jeitos.</p>
<p>Entre bordas e transbordos, revisito o <strong><em><a href="http://www.vivermaissimples.com/oito-anos-de-viver-mais-simples/">viver mais simples</a></em></strong>; faço novos pactos comigo. Às vezes, é bom. Outras, é demasiado. Não preciso decidir.<br />
Avanço passo após passo, confiando na intuição e traçando novas rotas dentro de um oceano confinado.</p>
<p>Presto atenção no movimento dos planetas, nos médicos e no pulso de meu coração.<br />
Um dia de cada vez. Vestindo algumas máscaras e despindo outras.<br />
A vida entre bordas e transbordos segue o ritmo das marés e acolhe tsunamis.<br />
É tempo de descobrir fundos, dentro.</p>
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		<title>Saúde é a maior liberdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Apr 2020 12:39:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2020]]></category>
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		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A experiência de passar dias sem sair de casa, nem sequer abrir a porta, abriu janelas inéditas por aqui. Por um lado, as possibilidades e necessidades que emergem desta contenção de espaço e ampliação de tempo. Do outro, a angústia de não fazer atividades familiares e triviais como ir ao supermercado toda vez que acaba [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A experiência de passar dias sem sair de casa, nem sequer abrir a porta, abriu janelas inéditas por aqui.<br />
Por um lado, as possibilidades e necessidades que emergem desta contenção de espaço e ampliação de tempo.<br />
Do outro, a angústia de não fazer atividades familiares e triviais como ir ao supermercado toda vez que acaba a farinha; marcar um café com amigos, visitar a madrasta 60+.<br />
Gestos e práticas automáticas (e portanto invisíveis) se revelam preciosas. Nunca tinha me preocupado com o impacto de apertar o botão do elevador e depois roer as unhas&#8230;<br />
A vida do outro também nos comove. O filho ilhado sem os amigos; o marido saudoso da roda de samba; a filha caseira que perde a janela de vida lá fora oferecida pela escola e o basquete.<br />
A luta inglória pela tal da rotina: nem sempre consigo acordar bem no horário de fazer o café da manhã. Quase nunca durmo cedo o suficiente. E com frequência o sono é agitado.<br />
As conversas profundas acontecem mais amiúde: é preciso negociar e renegociar diferenças com mais urgência, por estarmos mais espremidos por dentro e por fora. Sair para espairecer não é opção&#8230;<br />
Mas este parênteses da pandemia se insere numa vida maior. Perdi meu irmão caçula. Há negócios de família requerendo discussão. Há sonhos querendo nascer e trabalho precisando ser feito.<br />
E conciliar a vida dentro da vida traz também seus desafios, dores e aprendizados.<br />
Primeiro, a gratidão.  Precisava do recolhimento para processar a magnitude da saudade que sentia desde janeiro. Não há superação possível, nem cura duradoura. Mas poder deixar minha dor passear com mais amplitude me devolveu ar aos pulmões.<br />
Depois o reconhecimento das bençãos que eu não andava cultivando muito bem: conversas longas com amigos.  Ler um livro. Cozinhar. Jogar cartas e conversar com a família.<br />
Tudo que poderia ser feito antes da pandemia. E não era.<br />
Enfim, estar on-line comigo 24 horas.  Os refúgios habituais estão relativamente suspensos: o trabalho mais limitado, as tarefas mais concentradas.   Dialogo sem parar com meus medos, minhas angústias, meu luto, minha ansiedade, minha raiva. Tomo tempo para digerir, registrar e até voltar a escrever neste empoeirado blog.<br />
Não vejo na pandemia um bálsamo. Contudo, tampouco me ressinto desta inesperada mensagem da natureza sobre nossa vulnerabilidade e insignificância.<br />
Entre atônita e resignada, busco ficar no presente e compreender o tamanho desta transformação dentro e fora.<br />
O que verdadeiramente dói é o descaso de uma parte da população. A falta de entendimento de muitos sobre o preço de não enfrentarmos o isolamento social. Especialmente nós, que podemos nos dar este verdadeiro luxo de não sermos obrigados a nos expor.<br />
Nós que não somos funcionários da farmácia e de mercado. Que não estamos na linha de frente dos hospitais. Que não somos a infraestrutura que mantém a cidade limpa, com entregas em dia e comida na mesa.<br />
Nós, que temos o privilégio de uma casa, uma renda e a opção de não estar lá fora.<br />
Nós precisamos fazer nossa parte, que é a mais fácil. Mais fácil porque a solidão e o tédio são baratos versus a doença e a morte.<br />
E nem sempre será a nossa doença e nossa morte. Será quase sempre a do outro: mais idos@, mais frágil ou simplesmente, mais azarado do que nós.<br />
Hoje somos pássaros engaiolados. Ansiosos e irritados.<br />
Mas estamos vivos e quando este tempo passar, poderemos novamente voar.<br />
Não podemos roubar dos outros esta possibilidade. É um fardo muito pesado, disseminar o vírus invisível por aí.<br />
Sim, eu chorei outro dia ao dirigir de janelas fechadas por uma orla belíssima do Rio de Janeiro. A saudade de um banho de mar e um vento fresco doeram fundo.<br />
Anseio por ir e vir, tomar o metrô, conversar com o moço do Uber até.<br />
Esta é uma liberdade importante, sem dúvida.<br />
Mas a maior liberdade é a saúde.<br />
Sem ela, não há dinheiro, poder, sonho ou boa intenção que sustente.<br />
E quanto mais tempo, mais de nós ficarmos em casa, mais cedo poderemos desfrutar de nossa liberdade.<br />
Fiquemos em casa, portanto.<br />
Fiquemos por nós e pelo outros.<br />
Pelos pacientes de doenças que precisam de um leito agora indisponível. Pelas mães e pais que gostariam de se despedir de seus filhos mortos. Por médic@s e enfermeir@s que se sentem impotentes diante da falta de recursos e do excesso de doentes.<br />
Fiquemos em casa por humildade e reverência a esta Natureza maior do que nós. Este coletivo, maior do que nós.<br />
A saúde é a maior liberdade. E tod@s tem direito à liberdade.</p>
<p>#Fique em casa.</p>
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