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	<title>Arquivos pandemia - Viver Mais Simples</title>
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	<description>Viver Mais Simples</description>
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		<title>Vida em Marte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 May 2020 11:57:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Caio]]></category>
		<category><![CDATA[David Bowie]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[Marte]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os dedos buscam escrever. O coração acordou mais manso e mesmo assim, triste. O oráculo diário sussurra: devagar e doce. Recordo sobressaltada que ontem foi quatro meses de sua partida. Meio sem querer, esbarro na música do Bowie que fala da vida cotidiana mas se chama Life on Mars. Descobri por acaso também. E Bowie [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Os dedos buscam escrever.</p>
<p>O coração acordou mais manso e mesmo assim, triste.</p>
<p>O oráculo diário sussurra: devagar e doce.</p>
<p>Recordo sobressaltada que ontem foi quatro meses de sua partida. Meio sem querer, esbarro na música do Bowie que fala da vida cotidiana mas se chama Life on Mars. Descobri por acaso também.</p>
<p>E Bowie me lembra você. E me faz chorar toda vez. Parece que ele entende perfeitamente este momento doido que estou vivendo.</p>
<p>Lá fora, o mundo está de cabeça para baixo. Você não ia gostar de ver.</p>
<p>Eu nem sempre olho. Às vezes, é difícil demais. Mesmo para sua irmã otimista incurável.</p>
<p>Decido então olhar para dentro. E aqui dentro, com Bowie ao fundo, mora você, mora meu sonho de acordar o <em><strong><a href="http://voe.etc.br">Voe</a></strong></em>, mora meu amor infinito pelo Léo e a Olívia. Mora minha vontade de reinventar a vida aproveitando que está tudo fora do lugar mesmo.</p>
<p>Devagar e doce, as lágrimas rolam uma a uma. Nunca me importei em chorar. Que bom, porque este é um ano de muitas lágrimas.</p>
<p>Lá de longe, o cérebro me avisa que há trabalho por fazer. Devagar e doce. Devagar e cedo. Devagar, cedo.</p>
<p>Havia outros planos, mas talvez seja melhor não seguir os planos. Devagar e doce.</p>
<p>Decido tocar na ferida e <em><strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iYYRH4apXDo">ouvir a outra do Bowie que me lembra você</a></strong></em>. O fundo musical intergalático é uma homenagem aos astronautas que voaram para fora da Terra esta semana.  Talvez você esteja melhor aí no <em>outerspace</em> mesmo.</p>
<p>Mas não me queixo. Aqui há muita coisa boa para agradecer, a vida é tão de verdade do meu escritório nos fundos da casa.</p>
<p>Eu não preciso mais seguir as regras de sempre. Você sabe bem como eu gosto de inventar as minhas próprias regras. Então fico aqui, sem compromissos demais. Devagar e doce.</p>
<p>Tiro fotos de mim mesma, brincando de artista. O olho com fundo laranja mistura Marte, esperança, tristeza e a importância de estar desperta.<br />
Porque tudo está em movimento e o coração, às vezes, pesa. Mas não se despedaça.</p>
<p>Quem diria que você partir iria fortalecer meu coração ainda mais?</p>
<p>Meu amor por quem está aqui e a saudade-cicatriz do amor por quem já foi  são os únicos exercícios que tenho disciplina para encarar.</p>
<p>Suspiro fundo, o Bowie é bom mesmo.  Não é desespero, não é ansiedade. Não sei nem se é tristeza.</p>
<p>É mais uma suave melancolia, uma nostalgia do que está fora do alcance, uma curiosidade mansa sobre o que virá.</p>
<p>Esta semana foi de revoluções aqui dentro e lá fora. <em><strong><a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_George_Floyd"> Incêndios, revolta, mesas viradas</a></strong></em> sob o olhar implacável de Marte.</p>
<p>Marte, de novo, desta vez no viés da astrologia.</p>
<p>Subitamente, tudo se costura num fio de sentido: Bowie, Marte, você, meu pirata espacial Dr. Tranquilo, as lutas lá fora, as lutas aqui dentro. Devagar e doce.</p>
<p>&#8220;Ground Control&#8221;, o Bowie chama. &#8220;Can you hear me?&#8221;. Você pode me ouvir daí?</p>
<p>Diz que vai ficar tudo bem, tá?</p>
<p>&#8220;Cause there is nothing I can do&#8221;.</p>
<p>Por enquanto.</p>
<p>Devagar e doce, confio. Há de melhorar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Sobre bordas e transbordos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2020 13:36:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[daniela belmiro]]></category>
		<category><![CDATA[isolamento]]></category>
		<category><![CDATA[isolamento social]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[transbordando por aqui]]></category>
		<category><![CDATA[verve]]></category>
		<category><![CDATA[viver mais simples]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acordo com um dia mais livre do que o habitual. Tenho sono: as noites têm sido conturbadas. No entanto, já aprendi que tentar adormecer de novo não descansa meu corpo, então começo o dia com vontade de escrever. E o tema são bordas. Fronteiras que mantém a vida possível em tempos imprevistos e surreais. As [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Acordo com um dia mais livre do que o habitual.<br />
Tenho sono: as noites têm sido conturbadas. No entanto, já aprendi que tentar adormecer de novo não descansa meu corpo, então começo o dia com vontade de escrever.<br />
E o tema são bordas. Fronteiras que mantém a vida possível em tempos imprevistos e surreais.<br />
As rotinas são bordas que contém os mares turbulentos que me habitam. Especialmente durante o isolamento social e à luz das notícias preocupantes de todos os dias.<br />
O esforço é modular estas bordas. A permeabilidade, a rigidez, a densidade.<br />
O que deixar entrar?<br />
Conversas amigas curam. Encontros e reencontros, gestos de amor e amizade. Relatos solidários, dicas de séries, trocas de sentimentos, partilha de desafios comuns. Lembrar que somos humanos e não estamos sós.</p>
<p>Já as notícias tem sabor agridoce. Claro, é preciso conhecer o que é seguro e o que é permitido. É útil acompanhar a ciência e também questionar a ciência. Tudo são certezas provisórias e é crucial ler com espírito crítico. Informações ajudam neste sentido (o difícil é eleger as fontes).<br />
Do outro lado, os conflitos de ponto de vista, a dor e raiva causada pela desorientação (ou mau caráter) de nossos governantes, as hesitações e agendas ocultas que nos tolhem de uma direção firme rumo a sair desta crise. Recortes que alimentam a desesperança e aumentam a ansiedade.<br />
Agridoce. Ainda não consigo modular a quantidade a ser ingerida.</p>
<p>Trabalho também é borda. Mas a <strong><em><a href="http://www.vivermaissimples.com/para-compreender-capricornio/">capricorniana </a></em></strong>precisa ser vigiada. Percebo abusos no tempo de estar encerrada no escritório improvisado no quarto de empregada.<br />
Mas o que eu faço, além de ocupar os dias, me dá um senso de propósito. Poder contribuir, mesmo que um pouco, faz valer a pena e reduz o senso de impotência.</p>
<p>Amar, este é sem contra-indicação. Que os limites estão postos. Juntinhos, só com o marido e filhos. Os outros tipos de amor são por telefone ou computador. E para alguém desmedida em estender o braço, estas novas bordas são bem-vindas. Mesmo com tanta saudade de abraços.</p>
<p>Transbordo.<br />
Choro mais do que o habitual. Roo mais as unhas. Como mais chocolate.<br />
Converso mais e longamente com cada pessoa amiga. Presto mais atenção em cada filho. Tudo me emociona.<br />
Escrevo mais neste <strong><em><a href="http://www.vivermaissimples.com/sobre-o-que-me-faz-feliz-e-tambem-saudade/">blog</a></em></strong>.<br />
Respondo longamente aos pedidos dos amigos: uma opinião sobre o vídeo da<em><strong><a href="https://www.natura.com.br/consultoria/samaramar"> consultora de cosméticos</a></strong></em>. Um olhar sobre o texto da amiga terapeuta.<br />
Tenho tempo e saudades. Por isso me alongo.<br />
Transbordo novidades também.<br />
Aprendi a ouvir podcast. Inclusive este texto dialoga com o <em><strong><a href="https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy8xMWJhNWQxOC9wb2RjYXN0L3Jzcw/episode/ZTBiNjUzOTctNzRhMC00YTc2LTlhZDgtZjlhYjJhYWU2YzQw?hl=pt-BR&amp;ved=2ahUKEwijjKGh9bDpAhU5HbkGHaWKDOsQieUEegQICRAE&amp;ep=6">podcast da amiga</a></strong></em>.<br />
Aprendi a amar áudios no WhatsApp. A voz das pessoas é um tesouro.<br />
Aprendi novas receitas: leite de amêndoas, leite de côco, bolos, moqueca de forno.<br />
E tenho fome de aprender: estudo tarô, facilitação on-line.<br />
Também crio espaço para ser <strong><em><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Clarissa_Pinkola_Est%C3%A9s">mulher selvagem</a>.</em></strong><br />
Leio mais. Costurei as peças que pediam linha e agulha. Renovei o guarda-roupa de peças íntimas (<strong><em><a href="https://www.verve.com.br/?gclid=EAIaIQobChMIl4mQg_Gw6QIVhwmRCh2qdwaWEAAYASAAEgKzavD_BwE">na loja da outra amiga</a>)</em></strong>. Pintei as unhas do pé. Faço colagens. Cozinho como as avós e as mães. Arrumo a casa de tempos em tempos.<br />
E escrevo escrevo escrevo.<br />
O corpo, estou ainda aprendendo a cuidar. Reluto com as aulas on-line de <em><strong><a href="https://www.youtube.com/watch?reload=9&amp;v=Ic7gksAf6U8">Eutonia </a></strong></em>e <em><strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9q3hE0n8XPc&amp;feature=youtu.be">Pilates</a></strong></em>. Quase morri sem fôlego ao jogar uma partida de badminton com o filho, na quadra improvisada na sala. Mas vamos tentando de outros jeitos.</p>
<p>Entre bordas e transbordos, revisito o <strong><em><a href="http://www.vivermaissimples.com/oito-anos-de-viver-mais-simples/">viver mais simples</a></em></strong>; faço novos pactos comigo. Às vezes, é bom. Outras, é demasiado. Não preciso decidir.<br />
Avanço passo após passo, confiando na intuição e traçando novas rotas dentro de um oceano confinado.</p>
<p>Presto atenção no movimento dos planetas, nos médicos e no pulso de meu coração.<br />
Um dia de cada vez. Vestindo algumas máscaras e despindo outras.<br />
A vida entre bordas e transbordos segue o ritmo das marés e acolhe tsunamis.<br />
É tempo de descobrir fundos, dentro.</p>
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		<title>Para compreender Capricórnio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Apr 2020 13:53:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[astrologia]]></category>
		<category><![CDATA[capricórnio]]></category>
		<category><![CDATA[isolamento social]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Onde se esconde o coração de uma capricorniana? Desavisados podem pensar que em lugar nenhum, porque não há. Ledo engano. Somos sempre exaltadas pelo amor ao trabalho, determinação, foco e resiliência. E sempre criticadas pela dureza, teimosia, praticidade, concretude. Mas Capricórnio tem um coração, acreditem. Um coração muitas vezes solitário, pois sonhadores atraem mais admiradores [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Onde se esconde o coração de uma capricorniana? Desavisados podem pensar que em lugar nenhum, porque não há. Ledo engano.<br />
Somos sempre exaltadas pelo amor ao trabalho, determinação, foco e resiliência. E sempre criticadas pela dureza, teimosia, praticidade, concretude.<br />
Mas Capricórnio tem um coração, acreditem.<br />
Um coração muitas vezes solitário, pois sonhadores atraem mais admiradores do que os pragmáticos.<br />
E há poesia em Capricórnio. Uma poesia por vezes ácida e melancólica, mas ancorada numa chama de esperança. Afinal, seguimos. E seguimos.<br />
A poesia do apreço pelo esforço, especialmente quando a paga é pedra e não ouro.<br />
Um entendimento de que este dia passará, mas depois virá outro que pode ser igualmente ruim. Ou não.<br />
Uma incapacidade de edulcorar a vida, pois no fundo sabe que nosso destino é o pó e a trilha até lá há de ser árida.<br />
Um jeito um pouco brusco no amar, impaciente com bordados e tramas, pois a vida urge lá fora e aqui dentro.</p>
<p>Capricórnio gosta de riqueza, mas o dinheiro é uma boa ajuda para um coração generoso. Portanto, por que não?</p>
<p>Incompreendida, criticada, questionada, a capricorniana segue estóica com sua carga. Trabalho muitas vezes silencioso que é o sustento de tantos.</p>
<p>Voltemos ao coração vulnerável da capricorniana.<br />
A mesma vontade de amar, o mesmo desejo de largar tudo e simplesmente ser feliz por aí. O mesmo cansaço depois de um novo dia de escaladas.<br />
Mas ali dentro, o senso de dever, o medo do fracasso, as cicatrizes pulsando.<br />
Capricórnio é humano. Tem fome, sede, quer colo e reconhecimento.<br />
Debaixo dos pelos grossos, dos chifres tortos, da voracidade: uma pele macia e rosada, sangue quente, vísceras moles.</p>
<p>Eu sei, você que me conhece, pode desdenhar destas palavras. Você é uma sonhadora e sociável, Leticia. Que papo é este?</p>
<p>A quarentena (re)inaugurou solitudes inéditas. E reencontrei a <strong><a href="http://www.vivermaissimples.com/uma-crianca-estranha/">menina estranha</a></strong><em>, capricorniana, que habita em mim.</p>
<p>Após anos disfarçada sob o ascendente Aquário e nos muitos Sagitários, emerge minha eremita, avessa a multidões. Tarefeira como só, encontrando consolo no trabalho e motivação na rotina. Cá estou eu, uma capricorniana em isolamento social.</p>
<p>Mas com coração. Um largo, amplo e desolado coração.</p>
<p>Para Daniela Belmiro. Parceira de diálogáudios interoceânicos.</p>
<p>A imagem do post é de seu belíssimo trabalho no Desdicionário, disponível nas principais mídias sociais e agora em <a href="http://www.benfazeja.com.br/product/desdicionariodaniela-belmirocristiane-neder/"<strong>>LIVRO TAMBÉM</strong></a>.</p>
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		<title>Saúde é a maior liberdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Apr 2020 12:39:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2020]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[gratidão]]></category>
		<category><![CDATA[humildade]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A experiência de passar dias sem sair de casa, nem sequer abrir a porta, abriu janelas inéditas por aqui. Por um lado, as possibilidades e necessidades que emergem desta contenção de espaço e ampliação de tempo. Do outro, a angústia de não fazer atividades familiares e triviais como ir ao supermercado toda vez que acaba [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A experiência de passar dias sem sair de casa, nem sequer abrir a porta, abriu janelas inéditas por aqui.<br />
Por um lado, as possibilidades e necessidades que emergem desta contenção de espaço e ampliação de tempo.<br />
Do outro, a angústia de não fazer atividades familiares e triviais como ir ao supermercado toda vez que acaba a farinha; marcar um café com amigos, visitar a madrasta 60+.<br />
Gestos e práticas automáticas (e portanto invisíveis) se revelam preciosas. Nunca tinha me preocupado com o impacto de apertar o botão do elevador e depois roer as unhas&#8230;<br />
A vida do outro também nos comove. O filho ilhado sem os amigos; o marido saudoso da roda de samba; a filha caseira que perde a janela de vida lá fora oferecida pela escola e o basquete.<br />
A luta inglória pela tal da rotina: nem sempre consigo acordar bem no horário de fazer o café da manhã. Quase nunca durmo cedo o suficiente. E com frequência o sono é agitado.<br />
As conversas profundas acontecem mais amiúde: é preciso negociar e renegociar diferenças com mais urgência, por estarmos mais espremidos por dentro e por fora. Sair para espairecer não é opção&#8230;<br />
Mas este parênteses da pandemia se insere numa vida maior. Perdi meu irmão caçula. Há negócios de família requerendo discussão. Há sonhos querendo nascer e trabalho precisando ser feito.<br />
E conciliar a vida dentro da vida traz também seus desafios, dores e aprendizados.<br />
Primeiro, a gratidão.  Precisava do recolhimento para processar a magnitude da saudade que sentia desde janeiro. Não há superação possível, nem cura duradoura. Mas poder deixar minha dor passear com mais amplitude me devolveu ar aos pulmões.<br />
Depois o reconhecimento das bençãos que eu não andava cultivando muito bem: conversas longas com amigos.  Ler um livro. Cozinhar. Jogar cartas e conversar com a família.<br />
Tudo que poderia ser feito antes da pandemia. E não era.<br />
Enfim, estar on-line comigo 24 horas.  Os refúgios habituais estão relativamente suspensos: o trabalho mais limitado, as tarefas mais concentradas.   Dialogo sem parar com meus medos, minhas angústias, meu luto, minha ansiedade, minha raiva. Tomo tempo para digerir, registrar e até voltar a escrever neste empoeirado blog.<br />
Não vejo na pandemia um bálsamo. Contudo, tampouco me ressinto desta inesperada mensagem da natureza sobre nossa vulnerabilidade e insignificância.<br />
Entre atônita e resignada, busco ficar no presente e compreender o tamanho desta transformação dentro e fora.<br />
O que verdadeiramente dói é o descaso de uma parte da população. A falta de entendimento de muitos sobre o preço de não enfrentarmos o isolamento social. Especialmente nós, que podemos nos dar este verdadeiro luxo de não sermos obrigados a nos expor.<br />
Nós que não somos funcionários da farmácia e de mercado. Que não estamos na linha de frente dos hospitais. Que não somos a infraestrutura que mantém a cidade limpa, com entregas em dia e comida na mesa.<br />
Nós, que temos o privilégio de uma casa, uma renda e a opção de não estar lá fora.<br />
Nós precisamos fazer nossa parte, que é a mais fácil. Mais fácil porque a solidão e o tédio são baratos versus a doença e a morte.<br />
E nem sempre será a nossa doença e nossa morte. Será quase sempre a do outro: mais idos@, mais frágil ou simplesmente, mais azarado do que nós.<br />
Hoje somos pássaros engaiolados. Ansiosos e irritados.<br />
Mas estamos vivos e quando este tempo passar, poderemos novamente voar.<br />
Não podemos roubar dos outros esta possibilidade. É um fardo muito pesado, disseminar o vírus invisível por aí.<br />
Sim, eu chorei outro dia ao dirigir de janelas fechadas por uma orla belíssima do Rio de Janeiro. A saudade de um banho de mar e um vento fresco doeram fundo.<br />
Anseio por ir e vir, tomar o metrô, conversar com o moço do Uber até.<br />
Esta é uma liberdade importante, sem dúvida.<br />
Mas a maior liberdade é a saúde.<br />
Sem ela, não há dinheiro, poder, sonho ou boa intenção que sustente.<br />
E quanto mais tempo, mais de nós ficarmos em casa, mais cedo poderemos desfrutar de nossa liberdade.<br />
Fiquemos em casa, portanto.<br />
Fiquemos por nós e pelo outros.<br />
Pelos pacientes de doenças que precisam de um leito agora indisponível. Pelas mães e pais que gostariam de se despedir de seus filhos mortos. Por médic@s e enfermeir@s que se sentem impotentes diante da falta de recursos e do excesso de doentes.<br />
Fiquemos em casa por humildade e reverência a esta Natureza maior do que nós. Este coletivo, maior do que nós.<br />
A saúde é a maior liberdade. E tod@s tem direito à liberdade.</p>
<p>#Fique em casa.</p>
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